Por que (Não) Ensinar Gramática Na Escola?, Sírio Possenti

A milenar questão de “o que é certo e errado” permeia o ser humano em praticamente todas as áreas da vida. Atribuindo, sempre, um valor maior ou para o certo ou para o errado. Portanto, é de fácil conclusão que com a língua não seria diferente. Factualmente, existe o certo e o errado na língua. Porém, para a surpresa de muitos, a concepção de erro e acerto difere daquilo que facilmente vemos não só no senso comum, mas também em grupos de comprovada – ou não tão comprovada […] – relevância cultural. Grupos que possuem, por lógica, uma voz que alcança lugares distantes. Lugares, talvez, que o livro “por que (não) ensinar gramática na escola?” do professor Sírio Possenti não consegue chegar.

Primeiro, a obra apresenta um equívoco comum, mostrando que não existe apenas uma gramática – o que para o leitor mais leigo, que só teve contato com a gramática escolar – e o artigo “a” serve muito bem, pois, no universo escolar, a gramática é, de fato, única -, isso pode ser um choque…

Depois de apresentada a existência de, no mínimo, três gramáticas, o autor se propõe a classificá-las. Sendo, portanto, a primeira: Gramática Normativa: Conjunto de regras que devem ser seguidas. É a “a” citada. Aquela que todos conhecem e tem como objetivo normatizar a língua, julgando que exista uma maneira correta de falar e que as variantes linguísticas são erros. A segunda: Gramática Descritiva: Conjunto de Regras que são seguidas. Que, basicamente, se propõe a descrever como a língua é falada e quais regras ela segue. Regras, essas, que seguem uma lógica – afinal de contas, ninguém simplesmente combina as palavras -. Lógica, essa, que, muitas vezes, segundo a gramática normativa são erros da língua. Portanto, conclui-se que a segunda opção de gramática – gramática descritiva -, não há nenhuma proposta de normatizar e elencar uma variante superior. São todas dignas do mesmo estudo. Por último: Gramática Internalizada: Conjunto de regras que o falante domina. A terceira Gramática citada pelo autor se propõe a analisar “hipóteses sobre o conhecimento que habilitam o falante a produzir frases ou sequência de palavras de maneira tal que essas frases e sequências são compreensíveis e reconhecidas como pertencendo a uma língua.” (Possenti, pág. 69)

É após a descrição dos “objetos” e, ter plena ciência de que o leitor compreendeu os conceitos, que o autor passa a discorrer com maior liberdade sobre os assuntos, mostrando, sempre com uso da lógica, os malefícios que as regras com sentido normativo podem causar às pessoas: “Quem as transgride é apontado como grosseiro, marginal ou caipira, […] sua companhia pode não ser procurada, perderá oportunidades de jantar com as pessoas chiques etc” (Possenti, pág. 73). Para quem não vivenciou tal situação, é fácil imaginar alguém ser preterido por uma usar uma variante linguística que, segundo a norma gramatical, é considerada errada. E é, ao sintetizar de maneira extremamente lúdica a gramática descritiva, que percebemos a grande crítica do autor à gramática normativa“As regras de uma gramática descritiva se assemelham às leis da natureza, na medida em que organizam observações sobre fatos, sem qualquer conotação valorativa. Um botânico não critica plantas por apresentarem tais e tais características – descreve-as, classifica-as” (Possenti, pág. 73). Percebe-se, então, que a gramática normativa faz o oposto e é aqui que ela perde a mão, pois, tenta supostamente, controlar a “planta”, enquanto deveria apenas descrevê-la.

Outro ponto interessante apresentado pelo autor é o fato de o “errado”, quando dito pela pessoa “certa”, tornar-se certo – ou no mínimo aceitável -. Percebe-se, facilmente, que o problema não está apenas com o que é falado, mas, também com quem fala. Quantos diplomas ele tem? É doutor? Publicou livros? Escreve pra um jornal de grande porte? Ou é “só” um faxineiro, lixeiro, encanador que nunca nem pegou uma gramática? E são esses mesmos “cultos” que, uma hora ou outra, acabam assimilando as variações linguísticas – dantes julgadas como erro pela gramática normativa-.

Erro que para a gramática descritiva tem um conceito completamente diferente: “só seria erro a ocorrência de formas ou construções que não fazem parte, de maneira sistemática, de nenhuma das variantes de uma língua” (Possenti, Pág. 79). E então, para tornar lúdica a explicação, o autor cita a sentença “os menino”, que para a gramática normativaseria um erro. No entanto, para a gramática descritiva isso é apenas uma das variedades do português. Aliás, onde estaria o suposto erro da frase? Provavelmente, diriam, na falta de concordância do sujeito com o artigo. O que é explicável, visto que a suposta sentença correta “os livros” pode ser acusada da tão odiada – pelos gramáticos – redundância. Afinal, se já se indicou uma vez o plural, qual a necessidade de uma segunda indicação? Você também pode ver pessoas dizendo “os menino”, mas jamais “o meninos”, isso porque ela segue uma regra internalizada. Então, quem está errado? Segundo a gramática descritiva, ninguém. Erro, do ponto de vista descritivo, seriam construções como “o casa”, “a carro”, “a carros”, “tu vou”, que são cometidas apenas por estrangeiros que conhecem rudimentarmente o português – ou falantes nativos em momento de engano. E são consideradas erradas pois são estranhas – no sentido de que ninguém usa – ao padrão da língua discutida – no caso, o português.

Então, a escola deveria aceitar tudo e não ensinar a língua padrão aos alunos – como sugerem alguns críticos -? De maneira alguma! Não é isso que os linguistas e o professor Sírio Possenti sugerem. Eles focam na necessidade de explicar as variedades da língua e mostrar que elas existem e não, não são erradas. E não, não se deve tratar com negativismo aquele que a possui, seja por circunstância social, regional, diacrônica ou qualquer outra. Ninguém está tentando privar o aluno de uma cultura mais “elaborada” ou proibir que ele aprenda a língua padrão. Isso é sensacionalismo de quem descobre a falta de argumento para sustentar a teoria do certo/errado. Ou seria mais importante descrever a língua, a partir de suas inúmeras regras gramaticais, do que dominá-la na oralidade e, consequentemente, descobrir novos horizontes na ortografia? De maneira alguma, sugere o autor. Mais vale dominá-la – mesmo que não saiba descrever suas regras -, do que apenas descrevê-la.

Com essa conclusão, entendemos que perde-se muito tempo na escola ensinando as regras da gramática normativa que, em sua grande maioria já caíram em desuso, do que estimular a criatividade linguística e a discussão sobre as variantes da língua. Fato que seria muito menos pedante ao aluno, pois ele não se sentiria inferior ao desconhecer o uso de mesóclise. Pelo contrário, estimularia um interesse maior no aprendizado e na disseminação da língua, pois traria o ensino para o cotidiano – caso o objetivo fosse a discussão da oralidade -, deixando de lado o ultrapassado “certo/errado” e partindo do pressuposto de que, o que existe é o “adequado/inadequado”. Sendo assim, “inadequado” seria usar “nós vai” em um ambiente formal, como também o uso de “Eles levar-te-ão ao campo de futebol” num ambiente informal.

Para concluir o livro e não ser acusado de “teórico” – palavras do próprio -, o autor opta por demonstrar um esboço prático daquilo que ele entende de como poderia funcionar o ensino da Língua na escola. Primeiramente, exclui o ensino da gramática como ela é ensinada e passa-se a estuda-la inversamente proporcional a ordem apresentada das 3 gramáticas. Portanto, a mais estudada seria a gramática internalizada, seguida pela gramática descritiva, e por último a gramática normativa. Assim, se priorizaria a leitura, a escrita, a narrativa oral, o debate e todas as formas de interpretação. Diminuindo, consequentemente, o tempo para se aprender nomenclaturas, análises sintáticas e morfológicas. Portanto, propõem-se uma inversão radical de ordens para que o ensino da língua seja mais bem tratado e interessante aos estudantes.

Com essas recomendações, vê-se a necessidade do livro “por que (não) ensinar gramática na escola” ser lido por todo o corpo de profissionais de Letras. É preciso abrir mão da ideologia reacionária que tende, apenas, a censurar a liberdade linguística do aluno e afastá-lo de um possível interesse não só pela língua materna, mas por todas as outras, pelo fato de atrelá-las sempre ao já ultrapassado e comprovadamente negativo pedantismo gramatical.

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