“Rota 66″ – A história da polícia que mata, de Caco Barcellos

“A Veraneio cinza nunca esteve tão perto. A 200, 300 metros, 15 segundos: a sirene parece o ruído de um monstro enfurecido. Os faróis piscam sem parar. O farolete portátil de 5 mil watts lança luzes no retrovisor de todos os carros à frente. Os motoristas, assustador, abrem caminho com dificuldade por causa do trânsito movimentado nesta madrugada de quarta-feira, no Jardim América.”

Confesso que não abri as páginas do livro de Caco Barcellos por vontade própria. Muito pelo contrário, afinal, o livro é leitura obrigatória para estudantes do primeiro semestre de jornalismo da PUCRS. Entretanto, no momento em que passei meus olhos pelas primeiras linhas da narrativa do mais renomado jornalista policial do Brasil, percebi que estava diante de uma obra diferente. Para um leigo, o livro pode parecer completa ficção, mas a obra de Barcellos tem caráter investigativo e cumpre seu objetivo com maestria.

Vencedor do prêmio Jabuti em 1993, na categoria Reportagem, ‘Rota 66′ trata dos assassinatos de milhares de inocentes durante o período ditatorial no Brasil, por unidades das Rondas Ostensiva Tobias de Aguiar (ROTA). Caco Barcellos dedicou oito anos de sua vida jornalística à investigações sobre estes homicídios, analisando perícias, entrevistando testemunhas e acima de tudo, tentando entender o motivo de tantas tragédias. O formato, que conta com frequentes diálogos, torna a narrativa dinâmica, mas desperta no leitor um sentimento de estranheza quanto a veracidade das conversações.

Abrindo a narrativa com o caso da Rota 66, onde três jovens de classe média-alta foram assassinados após intensa perseguição, Caco enriquece a obra com a adesão de diferentes visões, em uma tentativa de compreender o sentimento de cada um dos envolvidos nos crimes. E não pense que quem vos escreve escolhe adjetivos pesados para intensificar as ações policiais… o  uso destes adjetivos é sim proposital, mas apenas porque estes adjetivos adequam-se perfeitamente às situações descritas.

Caco Barcellos, autor da obra

O objetivo do autor é claro: desvendar os mistérios dos assassinatos de inocentes causados pela própria polícia brasileira, e abrir os olhos do leitor para um outro lado muitas vezes não visto. Afinal, não eram só os opositores políticos e ideológicos do governo que eram caçados e torturados pelo regime, mas também aqueles cidadãos comuns, que se encontravam “no lugar errado, na hora errada”.

Por essa característica de livro-reportagem, o livro foi aclamado pelas críticas, mas Caco Barcellos pagou o prejuízo de uma obra bem-sucedida. O jornalista gaúcho teve de viver alguns meses em reclusão, fora do país, devido a ameaças feitas por coronéis da polícia militar. A situação é irônica, afinal, lembra muito as questões de censura e exílio que ocorriam durante a Ditadura Militar, época na qual se passa a narrativa do repórter da TV Globo.

Sem dúvidas nenhuma, ‘Rota 66 – A história da polícia que mata’ merece destaque no cenário literário brasileiro, por fugir do padrão estrutural e tão característico das obras de não-ficção do país. Além disso, todo o mérito é do autor, que lutou contra as críticas e conseguiu ultrapassar árduos obstáculos para que a publicação do livro pudesse ocorrer. A literatura luso-brasileira precisa, mais do que nunca, escritores assim, mais preocupados com o conteúdo e a relevância de sua obra do que com a aparência… afinal, deixemos o Parnasianismo para os parnasianos.

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