O Leitor, Bernhard Schlink

          “O Leitor” é um livro sem igual, e sua originalidade e estilo limpo e simples refletem-se em seu sucesso: é o romance alemão mais  elogiado desde “O Perfume”, de Süskind, e foi traduzido para 39 línguas. Além disso, também foi adaptado para o cinema em 2008.

          Bernhard Schlink é o dono de vários Best-sellers. Ele é professor universitário de Direito e Filosofia, e sua profissão tem grande impacto na sua escrita, que é concisa, direta, sem arabescos literários e bastante intrínseca. A narrativa é madura e, apesar do tom aparentemente frio da escrita alemã, consegue ser comovente e lindo, afinal, este é (mais) um romance que fala sobre amor. Mas não é nem um pouco comercial e pode até vir a ser de difícil acesso para algumas pessoas.

          Narrado em primeira pessoa, do jeitinho que eu gosto, a história contada se passa na Alemanha, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, e relata a vida do adolescente Michael Berg, que, ao completar quinze anos, conhece Hanna Schmitz, mulher misteriosa e vinte anos mais velha, por quem ele passa a nutrir um forte sentimento.

          Depois de sucessivos encontros, eles passam a manter um relacionamento, e Michael se torna cada vez mais apaixonado e obcecado por Hanna. E é com ela que ele descobre a literatura, o sexo, a vida – é graças à Hanna que ele começa a amadurecer. Geralmente, ele ia visitá-la depois da escola, e seguiam sempre o mesmo ritual: tomavam banho, deitavam-se para que ele lesse e só depois faziam amor (pois Hanna sempre pedia para que ele lesse para ela, e essa é a grande chave do livro. Aliás, os trechos que tratam do sexo foram muito bem explorados, e não são nem um pouco eróticos). Entre os autores que Michael lia para Hanna, estão Homero, Goethe, Mark Twain e Tolstói.

          Mas tudo o que é bom, dura pouco, e assim como começou, o romance dos dois logo acaba. Hanna desaparece sem deixar vestígios, de forma abrupta, e seu sumiço dá fim ao período idílico que Michael estava vivendo; ele fica desolado e acha que nunca mais vai vê-la…

          O tempo passa, Michael cresce e se torna um jovem amargurado, que não sente atração sentimental alguma por nenhuma mulher. Por fim, ele entra para a universidade para estudar Direito. Como tal, ele é levado para acompanhar o julgamento de mulheres acusadas de envolvimento em crimes de guerra, em um campo de concentração nazista, e é lá que ele reencontra Hanna: no banco dos réus.

          É nesse momento que Michael começa a sofrer por amar alguém que supostamente participou do maior crime da história, e se sente culpado e mal por isso, não se vê capaz de perdoa-la. Ao longo do julgamento, ele experimenta sentimentos de nojo, amor, compaixão e indignação, e fica cada vez mais indeciso, até perceber que Hanna carrega um segredo que julga ser mais vergonhoso que homicídio, um segredo que a faz agir às cegas e inocentemente, e participar de coisas que ela nem ao menos entende – segredo esse que não vou revelar, porque quero que leiam o livro… Finalmente, Hanna é condenada à prisão perpétua, e Michael se torna um homem ainda mais fechado e calado. Mas anos depois eles se reencontram, novamente, e a história passa por uma grande reviravolta.

          Este é um livro que não se prende a clichês e que não tem medo de falar sobre o que é certo e o que é errado, quem é culpado e quem é inocente, e a escrita austera e poética de Schlink é tão fabulosa que nos faz passar num piscar de olhos por todas as 239 páginas onde a história é contada. Um verdadeiro romance cinco estrelas!

Trechinho para deixá-los com vontade de ler:

          “[…] Tudo começou por causa da leitura. No dia após o encontro Hanna quis saber o que eu aprendia na escola. Contei dos épicos de Homero, dos discursos de Cícero e da história de Hemingway sobre o velho e sua batalha com o peixe e o mar. Ela queria ouvir como soavam o grego e o latim, e li para ela a Odisseia e o discurso contra Catilina.

          – Você também aprende alemão?

          – Como assim?

          – Você aprende só língua estrangeiras, ou também tem coisas para aprender na própria língua?
– Lemos textos.

[…]

          – Leia para mim!

          – Leia você mesma, eu trago os livros.

          – Você tem uma voz tão bonita, menino, gosto mais de ouvir você do que de ler sozinha.

          – Ah, não sei.

          Mas quando cheguei no dia seguinte e quis beijá-la, ela se afastou.

          – Primeiro você tem que ler para mim. […]

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João Meireles
carioca e poeta. twitter: @_JaumMeireles instagram: @jaummeireles

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