Pigmaleão, de George Bernard Shaw

Uma florista que possui uma pronúncia grotesca, aos olhos de um eminente fonético,  torna-se o experimento para um homem que deseja provar que é possível fazer dessa moça pobre uma lady aos olhos da sociedade, só pela postura e o uso da língua inglesa. Essa é a história que conhecemos pelo filme My Fair Lady, com a atriz Audrey Hepburn, de 1964. Porém, ela não é inédita. Foi baseada na peça do dramaturgo Bernard Shaw. E o nome do livro é Pigmaleão, escrito em 1913.

Eliza Doolitle é a mocinha que vende flores na porta de um teatro em um dia chuvoso. Ela grita por entre os vestidos e peles luxuosas das damas que aguardam o carro, pede para comprarem uma simples flor de seu cesto, única forma de sustento para a garota que mora em um quartinho e se aquece com farrapos e a própria saia. Acho que ela já cativa logo no início, quando é narrado o seu quarto. É paupérrimo. E ela é a preciosidade daquele quarto, não por ser uma moça que pode se tornar uma dama, mas por sobreviver por conta própria, pela simplicidade com que sonha em ter a própria lojinha.

Voltando ao enredo, o som rude do sotaque de Eliza é o que chama atenção do professor Higgins, que toma nota do chamado cockney, dialeto presente na Inglaterra. A moça resolve procurá-lo e pedir para ter algumas aulas, já que ela quer ter a própria lojinha para vender suas flores e aprender a se expressar melhor aos futuros clientes. Higgins, então, decide oferecer essas aulas. Mas claro que não é por gentileza que ele faz isso. Se Eliza for moldada e se tornar uma lady, ele será elogiado por todos da alta sociedade como aquele que sabe praticamente criar pessoas “civilizadas” apenas ensinando a tão exaltada língua inglesa. Ou seja, Pigmaleão expõe o cinismo de muitos eruditos por aí que se julgam conhecedores da língua, a alta sociedade hipócrita que se engana só por meia dúzia de palavras e uma boa vestimenta. E tudo isso nos diálogos afiadíssimos e divertidos de Bernard Shaw.

Não é por acaso que a peça foi intitulada Pigmaleão, é mais uma boa ideia de Shaw. Segundo Ovídio, na mitologia grega, Pigmaleão era rei de Chipre e escultor, que, na tentativa de reproduzir a mulher ideal, apaixona-se pela própria estátua que esculpiu. Pois então, já viu no que vai dar esses cinco atos do livro, né? Mas não espere frases apaixonadas. A relação entre Eliza e Higgins é complexa, pois é desigual. O professor se alimenta do poder que exerce na moça, acha que ofereceu o mundo a ela e que, por isso, naturalmente, Eliza deveria ficar aos seus pés pelo resto da vida. Mas Eliza é uma mocinha determinada, não serve para ser uma escultura a ser exaltada ao lado de um professor que gosta de contar vantagem pelo conhecimento que tem de fonética.

A tradução de Millôr Fernandes para o livro dá peculiaridade à obra. Bernard Shaw tentou transferir o cockney para a escrita, por meio da grafia, mas depois de muitas tentativas, achou impossível, resolveu escrever normalmente e deixar para os atores que fariam a peça o desafio de reproduzir o dialeto. Millôr, porém, resolveu tentar transferir o cockney para a língua portuguesa. Mas é importante dizer que, ao fazer isso, Millôr não desrespeitou de modo algum os sotaques presentes no Brasil, pensando que haveria um sotaque “errado” para contrapor às expressões de Higgins. O sotaque soa caipira, mas não por esse ser um sotaque que algum estudioso veria como errado, mas por ser semelhante ao som do cockney, que enfatiza mais a letra R. Assim, ele apostou na rapidez da forma coloquial, escreve errado propositalmente para indicar a pronúncia, com a finalidade de reproduzir a ideia do que é o cockney.

Em suma, Pigmaleão é uma obra leve, com um toque de comédia de costumes. E ainda extremamente atual. Quantas pessoas são desprezadas só porque não falam o que seria definido como norma culta? Higgins tinha todo o conhecimento da língua inglesa, mas não sabia ser sutil e muito menos delicado e polido com as pessoas ao redor. A sua riqueza não garantia um bom caráter. As flores que Eliza vendia por um preço tão barato eram muito mais genuínas do que as letras, que eram um simples meio de alcançar a perfeição ilusória, por Higgins. As flores valiam muito para ela, enquanto as letras eram desperdiçadas pelo professor numa tentativa incessante de provar ser o melhor. Está aí o recado de George Bernard Shaw.

Marina Franconeti
,23 anos, graduanda em Filosofia na USP. Escritora e cinéfila em formação, acha que qualquer dia desses vai se afogar na pilha de livros que precisa ler. Tem muito amor por sua biblioteca particular composta pelo primeiro livro que leu na vida, um infantil sobre Picasso, aos 7 anos, até as obras de Filosofia e Estética, que certamente vai reler até ficar velhinha. Bem lá no fundo acredita que Woody Allen vigiou seus sonhos e, assim, resolveu escrever o roteiro de Meia-Noite em Paris. Mantém o blog: http://marinafranconeti.wordpress.com/
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