O Muro de Jean-Paul Sartre – A visão do homem perante a morte

O Muro é o primeiro conto do livro de mesmo nome de Jean-Paul Sartre, autor que é considerado, por boa parte da crítica e dos leitores, o escritor fundamental da corrente filosófica Existencialismo. É através da literatura que vem buscar expor o maior dos dilemas humanos: o fim absoluto.

Narrado em primeira pessoa, na figura do personagem Pablo Ibbieta, trata-se da história de três homens que foram capturados pelos fascistas e enfrentam um destino comum: a sentença de morte por fuzilamento.

Há aquele que, chamado de menino, Juan, é acusado pelo simples fato de ser irmão de um anarquista. Durante o decorrer do livro,  há apenas desespero e lágrimas, derramadas por pena de si mesmo. Neste ponto o termo menino ganha um propósito maior do que a juventude. Trata-se da representação da imaturidade de alguém que chora como se lhe fosse imposto um destino o qual não estivesse fadado desde o dia em que nasceu. Na tentativa de ganhar a liberdade para viver novamente, ele tenta barganhar, entregando que o culpado é o irmão; tentando inocentar-se pelo fato de ter nascido com o mesmo sangue. É obrigado a seguir, por fim, inconsolável pela irredutibilidade de seus carrascos. Atitude previsível e descrita com detalhes pelas mãos de Sartre, mas que não é alvo fundamental de seus anseios. É sob a óptica dos outros dois personagens que o escritor francês discorre sobre a morte em si, como mostra desejar.

Ao receber a notícia de seu fatídico destino, Pablo se põe a pensar, pela primeira vez, em seu próprio fim. Sua primeira preocupação é nas balas entrando em seu corpo e em quanta dor irá sentir, mas então tudo se torna vazio e isso já não o aflige, deixa de ser a principal questão. Pablo, assim como Tom (o terceiro personagem), em diversos momentos tenta racionalizar seu futuro iminente, ao imaginar os canos das armas, os homens dizendo “atirar” e seu corpo apoiado contra um muro irredutível, apesar do peso de suas costas; isso não lhes oferece qualquer conforto.

O estado que se encontra é o de perda total de interesse na vida. Um dia atrás, ele sentia prazer em olhar para o céu e lembrar das coisas boas que fez e dos momentos que viveu. Das bebidas, das mulheres. Ele, que antes nutria paixão por Concha e lealdade por seu amigo anarquista Ramón Gris (cuja localização se recusa a delatar), agora já nada sente. Agora somente um “peso sem nome” se instala em seu coração. Sartre é sagaz ao colocar que “esse negócio de morte não é nada natural”, visto que nenhum homem está realmente preparado para não existir. Condena então: “a vida é uma mentira”.

“No estado em que me achava, se viessem me avisar que eu poderia voltar tranquilamente para casa, que minha vida estava salva, ficaria indiferente; algumas horas ou alguns anos de espera dá na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno.”

O trecho acima expõe a conclusão chegada por parte do personagem e coloca o leitor face a face com o absurdo. Mostra-nos que somos efêmeros e finitos, perante o que quer que possa acontecer – estamos todos fadados, assim como Pablo, Tom e Juan ao mesmo destino, pois somos todos iguais perante a morte.

Em “O Muro”, Sartre joga no colo do leitor o maior dos dilemas, explica e trabalha em cima dele. Nos instiga a refletir a todo momento, mas, no fim das contas, não nos diz o como lidar com ele. No final, em seu conto, o filósofo apenas nos sugere uma irônica e deliciosa gargalhada perante toda a vida.

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