Misto Quente, de Charles Bukowski

O livro narra fragmentos da vida de Henry Chikaski, personagem que é um alter ego do escritor e que aparece em diversos livros do mesmo. 

O garoto alemão, que vive com a família em um bairro pobre dos Estados Unidos é filho de um pai fracassado, violento e abusivo, e de uma mãe submissa e ignorante. A sua realidade é dura, cruel, amarga e solitária. 

Além dos problemas em família, Henry enfrenta dificuldade na escola, tem poucos amigos, os professores o veem como um fracassado, a opressão social permeia a sua vida, perspectivas acerca do futuro não existem e, para tornar tudo ainda mais difícil, ele não faz o menor sucesso entre as mulheres, principalmente em razão gravíssimo problema de espinha que enfrenta na adolescência. 

O interessante acerca do personagem-escritor é que mesmo diante de todo o sofrimento que permeia a sua vida, ele não possui sentimentos de ódio (exceto em relação ao pai), não é um homem cruel e vingativo. Também é preciso mencionar que em momento algum ele se faz de vítima ou se deprime, pelo contrário! Mesmo com todas as dificuldades e sentimentos conflitantes que o envolvem, ele ergue a cabeça e tenta se manter forte, determinado e seguro. Sua fuga: a bebida!

Apesar da crueldade que envolve a realidade do personagem e que fica clara nas palavras utilizadas por ele, em alguns pontos o livro é permeado por um humor ácido e sarcástico. Bukowski nos apresenta uma obra tão intensa e tão sincera, que por vezes fica difícil perceber o que ele realmente passou e o que é fruto da sua imaginação.

A leitura é ágil, a narrativa é simples, impactante e permeada com muitos palavrões. Não se trata de uma história com final feliz, em que tudo deu certo e as dificuldades foram superadas. Em Misto Quente encontramos uma realidade suja e cruel: de uma criança assustada com o pai, passamos a um adolescente que enfrenta crises com os amigos e descobre a sexualidade de forma vulgar, e terminamos com um adulto sem perspectiva e repleto de vícios. 

O que Bukowski conta no livro é, pura e simplesmente, a vida real, sem contornos e sem disfarces. É exatamente na sua capacidade de se mostrar em máscaras para o mundo que reside o motivo do sucesso do seu trabalho: ele transformou o caos em arte. 

Este foi o primeiro livro do escritor que eu li e gostei tanto que com certeza lerei todos os outros, no entanto, é preciso salientar que não é um estilo que agrada a todos.

Algumas passagens:

“Sentei no sofá. Ficar bêbado era bacana. Decidi que sempre me embebedaria. A bebida levava o que era vulgar para longe, e talvez, se você conseguisse ficar afastado do que era vulgar por tempo suficiente, pudesse escapar desse destino.”

“Era difícil para mim acreditar. Minha mãe tinha um buraco e meu pai um pinto que espirrava suco. Como eles podiam ter coisas como essas e continuar caminhando como se tudo fosse normal, conversando sobre banalidades, e então fazem aquilo e não contam nada para ninguém? Sentia realmente vontade de vomitar quando encarava a idéia de ter começado a partir do suco do meu pai.”

 

isabelal
Isabela Lapa. Advogada, administradora do blog Universo dos Leitores e colunista do site Literatortura. Acredita que as palavras podem construir e destruir, podem fazer amigos ou inimigos, nutrir sonhos ou desilusões e por isso ama o direito e a literatura: fontes infinitas de palavras, que utilizadas da forma correta podem mudar o mundo. É um misto de contradições e de sentimentos, de qualidades e de defeitos, por isso não consegue encontrar a definição exata de si mesma. Eterna sonhadora, tem grande paixão por livros, filmes, séries de TV e, principalmente, por gestos simples e sinceros de carinho e amizade. www.universodosleitores.com

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