Indique um Autor: Chico Buarque

Francisco Buarque de Holanda
(Rio de Janeiro, 1944)

O Chico Buarque escritor é tão antigo quanto o compositor e o cantor, mas foi apenas nas últimas décadas que o romancista apareceu. No entanto, ele já ensaiava alguns escritos aqui e ali, como Fazenda Modelo – Novela Pecuária (1974) e a historinha de Chapeuzinho Amarelo (1980). Seus livros, atualmente, têm estado em constante alternância com seus discos: de dois em dois anos um deles aparece há mais de uma década e as similaridades entre eles não passa daí. Se nas músicas Chico Buarque ainda mantém o modelo de composição que aprendeu com Tom Jobim e toda aquela geração, no escritor estão marcas mais profundas de uma identidade que não aparece na persona pública do autor. A principal relação entre seus livros está no uso de um personagem principal no masculino que permanece quase sempre alheio ao mundo exterior, como se fosse um estrangeiro onde quer que esteja. Assim, suas relações com os outros e com a sociedade é quase sempre mediada por essa imagem turva, labiríntica e alucinada na cidade contemporânea. Chico Buarque é um autor que procura e ousa, e na maioria das vezes chega bem perto de algum lugar muito relevante na história da literatura brasileira e da arte atual.

Minhas-imagens

Obra-Prima

Budapeste (2003), como José Miguel Wisnik diz na contra-capa do livro, se torna poesia no instante em que acaba. A obra é de uma inventividade de linguagem poucas vezes vista na literatura brasileira, fato ressaltado não por mim, mas por José Saramago. O enredo é sobre José Costa, um escritor fantasma que conhece Kriska em Budapeste e começa uma relação com ela ao mesmo tempo em que aprende o Húngaro. Aos poucos, a língua na boca das personagens vai se tornando o monumento de linguagem poética construída palavra a palavra em um jogo alucinado entre José Costa, sua esposa Vanda e seu novo amor Kriska. Essas três instâncias de linguagem, como um caleidoscópio, buscam se encontrar, mas fracassam em cada tentativa.

estorvo-chico-buarque-ed-cia-das-letras_MLB-O-101718844_2028  Primeiros passos

Estorvo (1991) é o romance de estreia de Chico. É sobre um personagem estranhíssimo que pelo olho mágico vê um homem que parece lhe espiar. Começa, então, um caminho obsessivo atrás de nada, através de uma lógica desenraizada, sem qualquer estrutura, inclusive, intelectual e racional. Esse rapaz que está sempre a um passo da alucinação e do sonho, permanece por toda sua trajetória pelos espaços atormentado por tudo e por nada: é a cidade e são as pessoas que impõe uma forma de deslocamento do “eu” construído por Chico Buarque que parece completamente fora do eixo do mundo. Sem centro ele perambula e o mundo é completamente turvo como a imagem de um olho mágico.

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Vale a indicação

Benjamin (1995) é sobre Benjamim Zambraia que vê em Ariela Masé a imagem de uma mulher que conhecera muito tempo atrás. Essa obsessão entre a imagem dessa jovem moça e a memória do passado se misturam numa confluência de tempos dentro da cabeça de Benjamin e faz com que sua capacidade de perceber o mundo seja profundamente modificada. Assim como em O Estorvo, Chico Buarque tira o “eu” da personagem do centro e, desfocado, ele não consegue se colocar: algumas vezes está alheio, alienado e não percebe nada do que se passa, em outras não consegue se comunicar, pois a Ariela de agora é apenas um reflexo da outra anterior. Além disso, o corpo de Benjamin, seduzido por essa fantasmagoria do passado encarnado no presente, mostra claras marcas de um anacronismo que se dá entre a subjetividade e a realidade.

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O mais diferente

Leite Derramado (2009) é o mais recente livro do escritor e, por acaso, o pior.  Conta a história de um velho que, na cama de um hospital, nos últimos momentos da vida, relembra o seu passado e tenta recompor sua história. A fixidez do velho e o excesso de lembranças que passam por eles, vindas desde o surgimento da família lá com os portugueses até à decadência socioeconômica do presente, desloca a narrativa daquilo que Chico vinha se especializando em fazer: montar um mundo alucinado. A memória, sempre mais lenta que qualquer gesto, esfria o livro e faz que tudo fique estático, imaginativo, burguês, como se Chico, enfim, tratasse da quantidade de tradições que ele próprio é obrigado a carregar e não consegue escapar. Parece o livro de um homem que vislumbra no retrovisor o fim da vida e precisa, de alguma forma, ficcionalizar as memórias a fim de que elas se tornem mais claras e palpáveis.

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Vale a lembrança

Gota D’água (1975) é de autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes. A peça atualiza a obra teatral Medéia de Eurípedes para o mundo atual, especificamente o subúrbio brasileiro da década de 70. Os autores dizem no prefácio que “O fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida, nos palcos, ao público brasileiro. Esta é a segunda preocupação de Gota d’Água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira.

A peça conta a história de Joana, uma umbandista, que é largada pelo marido Jasão que a troca por uma moça filha de um magnata que lhe promete uma carreira de sucesso como cantor. A canção Gota D’água se torna um sucesso e Joana é deixada de lado para criar os dois filhos, mas…promete vingança a Jasão. A peça, nos modelos da tragédia, que inclui a famosa catarse possui algumas das mais belas músicas de Chico como Basta um dia, Flor da Idade, entre outras. É um marco no nosso teatral e um projeto arrojado de Chico Buarque que vale a pena ser lembrado.

Voltando às origens

O Irmão Alemão, de Chico Buarque conta a história de Francisco de Hollander, um sujeito que, logo quando criança, encontra em um dos livros da imensa biblioteca da casa – biblioteca por sinal que ocupa todos os cômodos da casa – uma carta de uma mulher alemã que diz ter tido um filho com seu pai. Assim, Francisco passa a vida tentando encontrar pistas, indícios e sinais de que existiria, realmente, um irmão alemão. Passa, então, sua infância, na democracia brasileira, o golpe militar de 64, quando seu irmão, este conhecido, desaparece por conta do regime, até sua vida adulta e seu gradual envelhecimento. O irmão alemão, de Francisco, ou Chico, enfim, esteve presente em toda sua vida, mesmo que ausente.

 O livro não é feito de uma criação, mas de um eterno “fazendo” que coloca em destaque a própria literatura e o contar. Assim, sua obra não para de se revigorar em energia. É possível até que, se fosse reescrever sua obra, sequer uma linha permanecesse. Talvez, por isso, Leite Derramado tenha perdido tanto em relação às suas outras obras: a memória de um moribundo ainda estão muito presas à uma moral, a uma necessidade de permanecer: nesta obra do irmão inexistente, mas real, Chico pode novamente voar.

Leia a resenha completa:
http://indiqueumlivro.literatortura.com/2015/01/03/o-irmao-alemao-de-chico-buarque/

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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