As Intermitências da Morte, de José Saramago

Sabe quando você tá conversando com um amigo e daí você tem uma grande ideia? Pois é. A ideia, por mais genial que seja, precisa de desenvolvimento. “As Intermitências da Morte” (Companhia das Letras, 200 páginas) de José Saramago, tem como premissa uma ideia genial: a ausência da morte. Um dia, não se sabe quando, ninguém morreu.

A partir disso, a imortalidade, que é sempre tão sonhada por nós, é desnudada do seu encanto, e torna-se o agente direto da catástrofe estendida sobre esse desconhecido país onde se passa a história – provavelmente Portugal, terra do autor. O Estado vê-se perdido, e a Igreja – tema analisado sempre que possível pelo autor – fica em situação pior. Afinal, se não existe mais o temor da vida e a exclusividade do céu aos que padecem da condição de pecadores, por que as pessoas continuariam sendo fiéis?

Mas, a genialidade da ideia perde força. Saramago não desenvolve a sua bela introdução. Pelo contrário, ele limita-se a meras introduções: as empresas funerárias começam a falir, os hospitais têm superlotação, as igrejas perdem fiéis, e fica nisso. Não se sabe o que os donos de funerárias fizeram depois, muito menos os hospitais e as igrejas.

Em vez de focar na resolução da teia na qual as duas instituições se encontram, e desenvolver o panorama de caos desse simulacro, a trama desmembra-se em ideias igualmente boas, mas sem nenhum tipo de aprofundamento, como o caso das milícias que transportam gente para morrerem fora das fronteiras do país. A partir da página 100 a coisa desanda de vez. Somos apresentados a história de um violinista que conhece uma mulher e se apaixona por ela. Tal mulher é a própria morte. Esta, inclusive, é a trama que carrega a responsabilidade do final. Um tosco final, adianto.

Ao compactar as subtramas em tão pouco espaço, as ideias vão falindo. Em vez de reforçar o caos, a crueldade como tratamos a vida – e talvez a falta da morte, em vez de nos tornais imortais, nos fizesse só mais humanos – o livro termina com pouco mais de 200 páginas. Diante disso, a sensação é que existiu preguiça: Saramago catou um DVD de “Encontro Marcado” na locadora e terminou o romance. Talvez, a intenção de Saramago seria de fazer um livro leve, senão divertido, bem resumido, descompromissado em confundir o leitor, mas apenas em apresentá-lo à uma ideia; e ele que interprete da melhor maneira possível. Mas sua a prosa – famosa pela pontuação incomum – ou até mesmo a falta dela, aqui tem resultado oposto e chegar ao final do livro faz a gente realmente desejar morrer.

Quem leu outras obras, tais como “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Ano e a Morte de Ricardo Reis”, sabe da arquitetura dos livros de Saramago, e prepara-se para adentrar em um sagrado labirinto de reflexão, criatividade e, por que não, de polêmicos debates, sempre camuflados pelo simples encanto de uma boa história. Aqui, Saramago não teve amparo para ir além da boa ideia.

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