Indique um autor: Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles (19 de abril de 1923)

Lygia Fagundes Telles, sem dúvidas, revolucionou a escrita e, juntamente com a amiga Clarice Lispector, a democratizou ainda mais, ao mostrar que escritoras também possuíam o dom da palavra e da escrita. Dona de diversas honrarias, como o Prêmio Camões e o Jabuti, também faz parte da Academia Brasileira de Letras desde 1985 e da Academia das Ciências de Lisboa desde 1987.

A escritora paulista fez com que seu modo de escrever se tornasse algo único na literatura mundial e ajudou a mostrar a importância da literatura nacional ao restante do mundo. Ela possui um jogo de palavras intenso e que faz com que a leitura se torne não apenas uma atividade, mas uma experiência de vida. Nós vivemos os livros de Lygia. Vivemos cada história, cada narrativa.

Ou seja, não lemos Lygia. Ou, se apenas fazemos isso, não descobrimos ainda o poder de sua escrita. Nós devemos viver sua obra, para que cada palavra ali escrita seja aproveitada da maneira correta.

Obra-Prima

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Ciranda de Pedra (1954) foi o primeiro romance de Lygia. Nacionalmente conhecido devido ao fato de ter tido duas novelas baseadas na obra: a primeira em 1981 e a segunda em 2008. A história narra a vida de Virgínia, uma menina que vê sua família desmoronar, quando seus pais se separam e ela tem que ir morar com a mãe. Loucura, solidão, traição e morte permeiam toda a obra que foi classificada pela crítica da época como um romance que quebrou paradigmas da literatura. E ainda hoje, mais de 50 anos depois, ainda é considerado um livro diferente de qualquer outra narrativa existente. Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux e Paulo Rónai são alguns dos nomes que consideram esse o melhor livro de Lygia e um dos melhores da literatura nacional.

Primeiros passos

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O primeiro livro de Lygia publicado foi Porão e sobrado (1938). Este livro é uma coletânea de alguns contos que Lygia, uma jovem de apenas 15 (QUINZE!) anos, tinha escrito. Foi publicado com a ajuda de seu pai e não obteve muito sucesso de início. Porém, a audaciosa escritora resolveu mandar um exemplar para Érico Veríssimo, que estava fazendo um grande sucesso com Olhai os Lírios do Campo. Érico ficou estupefato com o talento de Lygia e a indicou para os círculos literários do país. E assim, nasceu uma nova escritora brasileira.

O único porém em relação a este livro é a dificuldade de acesso. Comprar a edição é inviável. Chega a custar R$1500 reais. E não há uma versão digitalizada. Porém, todos os contos presentes no livro estão divididos em outras obras da escritora, como Antes do Baile Verde, Seminário de Ratos e A Estrutura da Bolha de Sabão.

Vale a indicação

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Meu livro preferido de Lygia é Seminário dos Ratos (1977), uma reunião de contos que, segundo a autora, “giram em torno de temas que me envolvem desde que comecei a escrever: a solidão. O amor e o desamor. O medo. A loucura. A morte – tudo isso que aí está em redor. E em nós”. É um texto é preciso, com descrições fotográficas. Porém, Lygia impõe sua marca e não deixa o humanismo, a emoção e a sensibilidade de lado. Além da presença do fantástico, que deixa a obra ainda mais instigante.

Este livro chama a atenção e merece ser indicado por seus contos fugirem um pouco do usual e terem como motivos o meio-ambiente e tudo relacionado a ele, sempre com metáforas permeando a narrativa. Dois contos, inclusive, merecem uma indicação extra: As formigas, um terror que se equipara a João do Rio, um dos maiores nomes do conto de terror brasileiro e o Seminário de Ratos que faz duras críticas aos servidores públicos de uma maneira inusitada: comparando-os a ratos.

O mais diferente

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As Meninas (1973) é, com certeza, um dos romances mais inusitados da literatura brasileira. Ele narra a vida de três jovens: Lorena, Lia e Ana Clara. As moças moram num convento durante o regime militar. O que difere o romance de qualquer outra coisa é o foco narrativo. Ele varia a todo o instante e sem nenhum tipo de aviso prévio. Ora é em primeira pessoa, na visão de qualquer uma das meninas, ora em terceira pessoa, com a visão do narrador sobre os sentimentos, desejos e inseguranças das jovens no difícil período da política brasileira.

As Meninas foi agraciado com o Jabuti de 1974 e é considerado por alguns como o mais intenso livro de literatura brasileira. Além disso, destaque para uma cena de tortura descrita na narrativa, numa época em que a censura era rígida e não deixava nada passar.

Vale a lembrança

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Durante Aquele Estranho Chá (2002) é um dos melhores livros para se conhecer melhor e mais profundamente a obra de Lygia Fagundes Telles. Foi organizado pelo jornalista e estudioso da obra de Lygia, Suênio Campos de Lucena, que reuniu crônicas que retratam um pouco da rotina da escritora e seu encontro com outros autores. Simone de Beauvoir, Drummond, Jean-Paul Sartre, Jorge Amado, Hilda Hilst, Jorge Luis Borges e até a amiga Clarice Lispector.

O que mais encanta, porém, em toda a obra é a suavidade que Lygia conduz a narrativa, fazendo com os leitores acabem por participar da história e se interar da realidade e da vida da escritora. São narrativas emocionantes e que fazem com que o leitor se encante ainda mais com esta fascinante escritora.

Matheus Mans
19 anos. Estudante de jornalismo que, nas horas vagas, é crítico literário, cinematográfico e musical. De vez em quando, tem ataques literários e se arrisca a escrever uma crônica ou um conto. Além disso, um devorador voraz de livros e obcecado por música brasileira.

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