Eu dormi com Joey Ramone – Memórias de uma família punk rock, de Mitchell Leigh e Legs McNeil

Autor: Mitchell Leigh
Editora: Dublinense, 2013
Páginas: 360

Quem nunca passou por um momento na vida em que as acusações de ser poser (aquela pessoa que gosta de determinada banda/artista/coisa, mas não sabe quase nada a seu respeito, seguindo apenas a “modinha”) lhe caíram aos ombros? Pois é, recentemente me deparei com esse sentimento. E, pior, a pessoa que me alcunhou de tão desavergonhado adjetivo: eu mesma.

Esse foi o sentimento sobressalente ao me deparar e devorar o livro “Eu dormi com Joey Ramone”, uma espécie de biografia lançada aqui no Brasil no ano de 2013. Digo uma espécie de biografia pois o livro foi escrito por Mitchell Leigh, o irmão caçula de Jeff Leigh, em parceria com Legs Mcneil, um amigo próximo da família, e na obra, Mickey – apelido de Mitchell – traça um paralelo entre seu crescimento ao lado de Jeff e a cena musical da década de 60 e 70, enquanto desvenda a vida do irmão. Jeff Leigh? Sim, ele mesmo – mais conhecido por Joey Ramone, vocal da consagrada banda de punk rock, Ramones.

Em sua narrativa, Mickey desmistifica totalmente a imagem de Joey como o vocalista onipotente e líder de uma das bandas que originaram o movimento “do it yourself” em meados dos anos setenta nos arredores do Queens, nos Estados Unidos. Ele escancara, ao contar sua infância e adolescência ao lado do irmão três anos mais velho, um passado impensável para fãs dos Ramones. Joey nem sempre fora aquele cara de cabelos longos, calças rasgadas e atitude deliberada nos palcos. Oh, não, nem um pouco.

O livro perpassa a infância conturbada de Jeff, o cara que sofria bullying dos colegas na escola e na vizinhança por conta de suas pernas longas e que desde então já se interessava por música, seguindo a adolescência de saltos plataformas e macacões de paetês colados em meio á cena glam (no auge de bandas como New York Dolls e David Bowie), até o momento em que se torna Joey Ramone, ao lado de Johnny, Dee Dee e Tommy, a formação original da banda. A personalidade de Joey é uma incógnita: em alguns momentos há suas explosões emocionais, quase sempre contra a mãe, enquanto sua relação com os integrantes da banda (e principalmente com o conhecido inflexível Johnny Ramone) se mostra um tanto passiva, mas libertadora. O Ramones foi uma banda construída sobre uma base totalmente insólita (se não inexistente), e ao fim da leitura nos perguntamos: como é que ela pôde existir, sobreviver e  inspirar tanto? Nos faz pensar que, por um fiasco, a história da musica, bem como da juventude mundial, podia ter sido diferente e agradecer por ter sido totalmente ao contrário, apesar de toda a sorte de acontecimentos.

Para fãs, a leitura é muito mais do que indispensável, se é que se pode chegar a uma palavra para isso. Mais do que na vida de Joey, mergulhamos na construção de uma nova cena musical, bem como nos bastidores da banda que pirou a cabeça de muita gente mundo afora. Algumas curiosidades – como a formação da banda, a história por trás de algumas letras, a escolha do nome Ramones, as apresentações no lendário CBGB, a construção das artes dos álbuns, e as relações entre os integrantes durante os 21 anos de estrada, – me levaram de volta a uma época em que teria o imenso prazer de vivenciar, sabe como é: sentir saudades daquilo que eu nunca vivi. Recomendo muitíssimo!

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Má Dias
Estudante de Comunicação Social na UFRJ. A única coisa que realmente queria na vida não pode mais ter: dividir uma cerveja com o Velho “Buk” (o escritor Charles Bukowski, vítima do terrível ano de 1994 que matou muita gente legal e trouxe alguém que pode não ser tão legal assim).

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