A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói

“Nenhum homem que tem a infância atrás de si deveria esquecer-se da morte por um só minuto, tanto mais quanto a sua espera constante não só não envenena a vida, mas lhe empresta firmeza e claridade” Tolstói, carta à sua tia

“Que é isso?” – perguntou-se no leito de morte. Tolstói não soube responder, mas percebeu que seu irmão “sentia a própria passagem para o nada”. A morte de seu irmão e o seu sepultamento foram para Tolstói o primeiro encontro com a questão das questões. Eis um elemento central da literatura deste autor, sobre o qual relatavam ser obsessivo pelas questões da morte. Devemos partir de uma primeira ressalva: esta obsessão não era uma vontade de morte, mas uma vontade de entendê-la movida por um temor, um estranhamento, como relatou um de seus 15 filhos: “Embora durante trinta e cinco anos não deixasse de falar um só dia na morte, meu pai não a desejava”.

Não nos espantamos, portanto, quando nos deparamos com a morte nos seus livros, ela é antes de tudo um elemento catártico. Como na morte do príncipe Andrei e a quase execução de Pierre em Guerra e Paz e a morte de Lévin em Anna Karênina, para citar duas de suas obras monumentais. Entretanto, é em A morte de Ivan Ilitch, uma pequena novela de 76 páginas, que topamos frente a frente com a questão da finitude, em alta concentração, sem desvios nem distrações.

Frederic Bazille, O hospital de campo improvisado,1865

 

Ivan – um burocrata cujo lema era ter uma vida “leve, agradável, alegre e sempre decente e aprovada pela sociedade” – morre. Eis a trama. O inevitável encontro do homem com a morte. Se inicialmente nos vemos afastado desse entediante juiz russo, preocupado com a escala social, cansando-se “porque as pessoas das suas relações aprovaram aquele partido”, somos obrigados a reconhecer por fim que ele tem conosco a maior das semelhanças: ele morre.

Mas a morte não de Ivan não é assim tão pontual. Quando ele finalmente chega ao cume de sua ascensão, isto é, ao encontrar o bom ordenado, as boas funções, a estima e jurisdição adequadas para a sua posição na sociedade, Ivan é acometido por dores sem causa. Um “rim móvel” talvez – diz-lhe um Doutor – Ou ainda, quem sabe, um mal no ceco.

Essa dor o consome, pouco a pouco, toda a vitalidade. Num determinado ponto, Ivan se dá conta que não está doente, está morrendo. Um grande juiz, um homem comme Il faut, esvaindo-se em dores abdominais sem explicação. As pessoas à sua volta o tratam como um doente em tratamento e isso o irrita profundamente. Neste momento, dois personagens se opõe colocando em cena um segundo elemento bastante recorrente nos livros de Tolstói.

De um lado, Prascóvia, a esposa que mente seu próprio pesar, finge acreditar que o marido não morrerá, ignorando o fato de sua morte porvir e representa, assim, toda a vida social da alta classe burocrata russa, que ignora as questões verdadeiramente importantes. Do outro, Guerrássim, o humilde copeiro, que cuida de Ivan como a um moribundo, que o trata como igual, que limpa as suas fezes, ele é o representante dos humildes trabalhadores, que na sua simplicidade são mais sábios. O ódio por sua esposa e o amor pelo copeiro são dois lados de uma mesma relação: a de Ivan com a sua finitude.

“O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizessem, nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte. E esta mentira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobra a sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar parte naquela mentira. […] via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação. Guerrássim era o único a compreendê-lo e a compadecer-se dele. E por isso Ivan sentia-se bem unicamente na presença de Guerrássim.”

Provido que a relação entre Ivan e Guerrassim não se dá fundamentalmente pelo diálogo, há por isso mesmo uma legitimidade entre compreensões de outro registro. A na atividade e alegria de Guerrássim ao carregá-lo, levantá-lo, acompanhá-lo que Ivan enxerga o oposto das palavras ignorantes de Prascóvia, que, ao contrário do que quer transparecer, preocupa-se mais com ela mesma do que com a morte de seu marido, até certo ponto desejável.

Nos derradeiros movimentos de sua consciência, Ivan começa um diálogo consigo, ou com um espírito, não se sabe bem, cujo resultado será a mudança completa de sua concepção de morte, sem deixar o campo da imanência. Não revelarei o final do livro, por uma questão de sabor, eu não o faria com a maestria de Tolstói. De fato, toda a construção da situação de Ivan se faz necessária para a apreciação deste último instante de sua vida.

A obra de Tolstói é costumeiramente divida em duas: a crítica aos costumes da doutrina cristã ortodoxa e a crítica aos costumes da alta sociedade russa. Esse viés crítico torna-se bastante propositivo por meio das “lições de moral” que encontramos em suas obras. Daí a sua costumeira denominação posterior de anarquista cristão, um termo bastante impreciso, usado para se referir à sua resistência mística às convenções sociais de sua época. A morte de Ivan Ilitch é um livro impressionante que ultrapassa os possíveis questionamentos que tenhamos à filosofia ou à religião de Tolstói, já que trata de maneira ímpar uma questão que nos torna todos reféns, ou se preferirem, atores de um mesmo processo.

Resenha por:

Rafael Lauro – Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Formação esta que continua a ser construída a cada dia, sem perspectiva de término.
* Postada originalmente em: http://arazaoinadequada.wordpress.com/2014/01/02/a-morte-de-ivan-ilitch/

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