O Espelho, de Machado de Assis

O Espelho, um dos contos mais célebres de Machado de Assis, narra as incertezas do sujeito universal; o que diz a narrativa é simplesmente que não há unidade prévia da alma.  A consciência humana vem de fora, mas como este “fora” é incerto e oscilante, porque incerta e oscilante é a presença física do outro, incerta e oscilante é o apoio.

A personagem central do conto é Jacobina, um homem de 45 anos, de origem humilde, que foi nomeado alferes da Guarda Nacional aos 25 anos de idade, o que lhe garantiu uma mudança de status. Em razão deste acontecimento, a família passou a elogiá-lo demasiadamente e a chamá-lo Sr. Alferes. A partir daí, a percepção que Jacobina tinha de si mesmo passou a ser aquela que os outros tinham dele. Assim, quando a família viaja e Jacobina se vê sozinho, entra em desespero e em profundo estado de angústia, pois não consegue mais enxergar a sua “alma exterior” que conseguia perceber no olhar do outro, que o mirava e o admirava; o olhar dos outros é o primeiro espelho. Sem o olhar do outro, Jacobina procura o seu próprio olhar colocando-se de frente ao espelho que ganhou da tia Marcolina, o espelho dirá o que o eu parece ser, mas como está sem a farda de alferes falta-lhe a aparência do status, por isso falta-lhe a realidade, o ser.

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O espelho suprindo o olhar do outro, reproduz fidedignamente o sentido desse olhar. Mas está sem a farda, sem farda não é alferes, não sendo alferes não é nada; “O alferes eliminou o homem”. Jacobina veste a farda e coloca-se em frente ao espelho, e só então consegue enxergar sua imagem, a imagem de si tal qual vê o olho do outro, do outro que reconhece a sua alteridade e assim Jacobina volta a existir para si próprio, pois a opinião era seu único espelho fiel, quebrada essa imagem o que lhe sobra é o enigma.

Diante do espelho Jacobina se consagra como se estivesse presente em um ritual, ao regime da opinião num instante que empenha todo o seu futuro. Esse momento, que parece tão emblemático, é o modo que Machado de Assis encontrou para tratar da passagem que todo homem deve cumprir: do estado de ingênua fraqueza ou inexperiência à máscara adulta.

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Resenha por Francisco Venâncio, estudante de Letras.

Francisco Venâncio
Formado em Letras pelo Centro Universitário Padre Anchieta em Jundiaí/SP.

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