Bonequinha de luxo, de Truman Capote

O famigerado tubinho preto e as pérolas elegantes, o fascínio pela Tiffany’s bem como o encanto de Holly Golightly que conhecemos por Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo estão ainda mais vivos pela mão de Truman Capote, criador da obra adaptada ao cinema. É com surpresa e alívio que o leitor vai se deparar com muitas das cenas adoráveis do filme presentes logo de início na obra escrita. Claro que não haveria problema se fossem distintos, já que é possível um diretor recriar um enredo, assim como não dá para exigir do escritor a mesma imagem cinematográfica. Nem é justo. Mas vê-las pela escrita simples e exata de Capote re-significa a história que conhecemos.

Muitas vezes, durante a leitura, entendi por que a atriz Emilia Clarke (a Daenerys, de Game of Thrones) foi escolhida para a primeira versão da obra na Broadway. Não sei dizer se a adaptação foi bem-sucedida, mas o sorriso largo de Holly, o jeito debochado e a inocência que surpreende à primeira vista pelo contraste do seu discurso sem pudor existem de relance na presença da atriz.

Por que iniciar uma resenha falando sobre as atrizes que encarnaram Holly? É difícil tomar para si uma personagem que pode cair no erro se não for bem compreendida. Pela voz de um narrador quase inexistente, apelidado de Fred pela jovem, pois lembra o irmão dela, conhecemos Holly Golightly, uma mocinha de virtude duvidosa para os anos 50, deseja se casar e se casar bem. Ela é o que se nomeou de caça-dotes, uma bonequinha que estaria disponível para acompanhar os homens da high society, que preza pela beleza e a elegância simples. Um deles é até um diplomata brasileiro, veja só.

O olhar do narrador é o do escritor que ainda não sabe bem qual caminho traçar pela sua narrativa. Seus textos são insípidos e quando começa a contemplar a própria vida, encontra a musa inspiradora em carne e osso, ao seu lado. Por isso, ele se retira do enredo e se recoloca apenas para contar quem é a moça que ele admira, uma jovem desbocada e graciosa. Holly se torna para nós, então, uma espécie de ninfa contemporânea, que se veste com as melhores roupas para adornar o corpo que oculta ao seu admirador. Mas diferente da musa que se deixa ser vista, Holly ganha voz pela história de Capote. Mesmo que isso ocorra por meio do olhar masculino.

O exemplar da Companhia das Letras expõe Bonequinha de luxo e mais três contos que se interligam de uma maneira curiosa: todos os protagonistas são marginalizados pela sociedade. Capote não expõe o tema por uma escrita lamuriosa, que torna esses personagens coitados e, portanto, inferiores e dignos de pena do leitor. Eles engrandecem pela escrita de Capote, transformados em quase heróis decadentes, que se sustentam apesar da sensação de abandono.

Holly Golightly carrega certo dandismo na sua forma de se comportar. Característica do século XIX de um personagem bem presente nas figuras dos poetas e de George Brummel, o dândi se coloca na sociedade como um sujeito que preserva a sua elegância, a sua expressão artística pelo gesto que deixa na forma com que vive na sociedade. Contudo, essa se diverte com sua singularidade e o nega ao mesmo tempo. Holly é assim, a mocinha que agrada aos olhos masculinos, mas é rejeitada quando a sua reputação se torna exposta e duvidosa demais. E aqui, ela é mais uma mulher que vira a vítima das acusações de “vulgaridade”, “ataque à moral”.

Provavelmente Truman Capote deve ter vivenciado essa dificuldade em receber destaque como escritor, uma profissão que ganha um aspecto cult visto como intelectual admirável ao mesmo tempo em que pode ser a figura depreciada por aquilo que denuncia. Com uma ironia capaz de prezar pela leveza dos diálogos cotidianos, o autor dá uma cor intensa à Holly. Se Audrey conseguiu transmitir a elegância na decadência e o ímpeto em clamar por liberdade, a Holly de Capote é ainda mais moça, mais forte em seu espírito livre.

A leitura de Bonequinha de luxo flui como uma conversa informal e deixa um gosto de melancolia ao ser finalizado. Por ficarmos sem Holly e sem Capote. Porém, os contos ao final recompensam o leitor. Uma casa de flores conta com um enredo fantasioso de uma moça do Haiti que se apaixona e desiste da vida que levava para ficar ao lado do homem amado. Nele, Capote consegue dosar o movimento de dúvida entre quem domina e quem é o dominado no enredo, onde se pode encontrar a liberdade das formas mais inesperadas.

Um violão de diamante carrega um componente estético bem interessante. Da sua leitura fica novamente no ar até que ponto uma pessoa pode romper consigo mesmo para encontrar a liberdade. Essa dúvida paira tanto quanto o encanto pelo violão feito de diamantes no enredo. Por fim, Memória de Natal é uma pérola literária. Ao terminar de lê-lo, a vontade é de guardá-lo para não sentir novamente a tristeza dos personagens. No segundo seguinte, a vontade de relê-lo é quase inevitável. Não leia na época natalina, só o deixará mais triste. O conto possui uma carga autobiográfica, no qual se percebe que Capote pôs a sua alma e sua infância na forma mais bela possível de ser exposta. Os personagens possuem um quê de Charles Dickens e é difícil abrir o livro novamente sem se emocionar com as palavras do último conto.

Assim, Bonequinha de luxo é uma obra que vale ser lida e apresenta a grandiosidade que chamou a atenção do diretor Blake Edwards para a adaptação cinematográfica. Mais do que o ícone que Audrey Hepburn compôs com maestria, existe uma Holly Golightly viva no livro que merece ser conhecida.

Marina Franconeti
,23 anos, graduanda em Filosofia na USP. Escritora e cinéfila em formação, acha que qualquer dia desses vai se afogar na pilha de livros que precisa ler. Tem muito amor por sua biblioteca particular composta pelo primeiro livro que leu na vida, um infantil sobre Picasso, aos 7 anos, até as obras de Filosofia e Estética, que certamente vai reler até ficar velhinha. Bem lá no fundo acredita que Woody Allen vigiou seus sonhos e, assim, resolveu escrever o roteiro de Meia-Noite em Paris. Mantém o blog: http://marinafranconeti.wordpress.com/
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