Agosto, de Rubem Fonseca

Sempre tive a sensação de que nunca conseguiria entender qual o objeto de estudo da literatura ou mesmo que nunca conseguiria entender o que é literatura, talvez eu ainda esteja longe de dominar tais conceitos, entretanto, alguns anos após ter estado naquele lugar desconfortável sentindo que nunca chegaria a entender os conceitos apresentados pelos professores no doloroso percorrer do curso de Letras, deparei-me com a prosa de Rubem Fonseca e então pude entender que o misterioso objeto de estudo da literatura só pode ser a própria literatura.

A intensidade da obra, do referido autor, intitulada Agosto mostra-se logo na epígrafe com um trecho do monumental Ulisses de James Joyce cuja trama de mais de mil páginas ambienta-se em um único dia, semelhante ao texto de Rubem Fonseca que se desenrola no período de um mês: agosto. O enredo “aparenta” ser bem simples, a cena de um crime; um comissário de polícia encarregado de solucionar o caso; um triangulo amoroso entre este, a atual e a ex-namorada; um assassino que precisa ser capturado, tudo acontecendo ao mesmo tempo em que os políticos e militares conspiram uma reforma política do governo Vargas.

O que carrega a falsa aparência de simplório começa a se complicar quando um emaranhado de acontecimentos nos leva a conhecer o comissário de polícia Alberto Mattos, a princípio uma grande incoerência: Mattos é o único policial honesto do distrito em que trabalha, quando mantém um gosto pessoal por óperas desde a adolescência,aliás, uma das óperas que gosta de ouvir é Tristão e Isolda, outra música que ele ouvia quando criança e com a qual sempre se emociona é Una furtiva lacrima. Afora essas pistas, Mattos sofre com uma úlcera que se agrava a cada dia não importando quanto leite ele tome para tentar curá-la. O fato de Mattos não se encaixar ao seu ambiente de trabalho e de se emocionar sempre que ouve a música Una furtiva Lacrima me levou de imediato a associar a figura de Mattos à figura da “pobre” Macabéa do romance A hora da estrela de Clarice Lispector. Macabéa, uma nordestina analfabeta ambientada no Rio de Janeiro cuja vida se passa no interior de uma pensão onde o único divertimento é ouvir o rádio para saber as notícias, embora não entenda nada do que ouve. O fato é que Macabéa assim como Mattos, encontra-se em um ambiente completamente deslocado, quase como se estivesse fora do seu habitat natural e o narrador anuncia o tempo inteiro que o único final feliz possível para ela é a morte. Outra característica semelhante é que Una furtiva lacrima é a única música que ela conhece e com a qual se emociona mesmo sem saber do que se trata, é claro que Mattos é bem mais instruído que Macabéa, porém, também está no lugar errado.

Quanto à trágica historia de Tristão e Isolda, confesso que demorei um pouco mais a associar a referência e perceber que a namorada atual de Mattos também morreria. O fato é que o narrador de Agosto está conspirando para a morte do herói do romance desde o inicio do texto. Paralela à história de Mattos o narrador denuncia uma conspiração dos militares das forças armadas para derrubar Getúlio Vargas do poder, ou seja, o narrador utiliza Mattos como uma espécie de alegoria para discutir o próprio ato da escrita, a conspiração contra Getúlio Vargas também é alegórica. Descobri em poucas páginas que Mattos morreria ao final da história, embora fosse bom moço, o que culmina para uma tragédia assim com em Tristão e Isolda, pois neste os dois personagens que carregam o nome da obra morrem.

Ao trazer essas referências ao texto o narrador de Agosto demonstra que a única saída possível para o seu personagem é a morte, tanto que o assassino do primeiro crime que abre o romance não é capturado, e está tudo bem. Afinal, se estamos tratando de literatura genuinamente brasileira seria incoerente uma narrativa em que o assassino fosse preso e um crime solucionado, pois no Brasil as instituições não funcionam, elas são apenas uma grande fachada. …e por falar em fachada, não é exatamente isso o que o narrador Rodrigo nos apresenta em A hora da estrela?

(Para uma melhor compreensão do romance A hora da estrela acesse  http://indiqueumlivro.literatortura.com/2014/07/29/a-hora-da-estrela-por-clarice-lispector/

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Resenha por Francisco Venâncio, estudante de Letras.

Francisco Venâncio
Formado em Letras pelo Centro Universitário Padre Anchieta em Jundiaí/SP.

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