Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso

Autor: Lúcio Cardoso

Editora: Circulo do livro

Páginas: 536

O leitor que se interessa por histórias misteriosas e muito bem contadas encontrará na magistral Crônica da casa assassinada de Lúcio Cardoso uma obra-prima cuja narrativa carrega o dom de prender a atenção do início ao fim. A história é ambientada em uma fazenda em Minas Gerais e conta a história da decadência de uma casa, de uma família, de uma tradição e de um espírito.

Crônica da casa assassinada é um romance composto por cartas, confissões, narrativas, revelações, diários, depoimentos e memórias e carrega o suspense e o mistério que, estrategicamente, só será revelado nas últimas páginas do texto. A narrativa conta a história da tradicional família Menezes composta pelos três irmãos Demétrio, Valdo e Timóteo que desmorona e se desintegra com a presença de Nina, personagem-centro não apenas da narrativa, mas da atenção, do interesse e da paixão dos integrantes da família. Demétrio é o patriarca da família, casado com Ana, esposa submissa e sem graça; Valdo, um homem fraco e apagado, casado com Nina que conhecera durante uma viagem ao Rio de Janeiro; e Timóteo, travesti, rebelde e transgressor que vive isolado no quarto. Quando Valdo e Nina se casam há na Casa um jardineiro, Alberto, por quem ela se apaixona e mantém uma relação extraconjugal, porém a relação não dura muito tempo, pois logo Nina engravida e viaja ao Rio de Janeiro para ter o filho e Alberto comete suicídio por perdê-la. Ana viaja ao Rio de Janeiro e volta com a criança, André, suposto filho de Alberto e Nina. Quando, dezessete anos depois, Nina retorna do Rio de Janeiro a pedido de Valdo envolve-se numa relação incestuosa com o ”filho” e morre alguns meses mais tarde vítima de câncer. Todas as personagens são atormentadas pela culpa e pelo ódio e no final acabam morrendo junto com a casa.familia

O romance é escrito em primeira pessoa o que possibilita ao leitor enxergar um mesmo acontecimento pelos diversos testemunhos das personagens dando a um mesmo fato diversificados ângulos e possibilidades de interpretação. Uma consequência do uso da primeira pessoa é que os testemunhos revelam um jogo de mostrar/esconder, ser/parecer, disseminar/agrupar norteado pelo desejo que promove. Por isso alerto que os narradores são pouco dignos de confiança, também em virtude do funcionamento da memória que muitas vezes falha ou pode subverter os acontecimentos e transformá-los em algo que poderia ter sido. O jogo é o grande cerne da trama, a suposta ausência do autor permite que cada personagem se empenhe ao máximo em tentar convencer o interlocutor sobre a veracidade da sua versão dos fatos.

O distanciamento entre autor e texto proposto por Lúcio Cardoso neste romance composto em forma de diários e cartas recolhidas assemelha-se à composição do romance A hora da estrela de Clarice Lispector cujo narrador é Rodrigo S.M, mas na verdade a própria Lispector. A diferença é que n’A hora da estrela o desmascaramento do jogo é proposto pelo próprio narrador enquanto na Crônica o trabalho fica por conta do leitor. Esta característica talvez faça parte de uma convenção literária em que o autor não detém o controle absoluto sobre a sua narrativa.

AVISO: O leitor será testado em relação à quantidade de ódio que carrega no coração.

Francisco Venâncio
Formado em Letras pelo Centro Universitário Padre Anchieta em Jundiaí/SP.

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