Beira Rio, Beira Vida, de Assis Brasil

Autor: Assis Brasil
Editora: Edições O Cruzeiro, 1965
Páginas: 178

Todo litoral também é beira. Limite entre a realidade material da terra e o desejo irreal da água. As belezas que prometem a beira-mar e a beira dos rios também podem nos apequenar: na imensidão do desconhecido, do mistério, do que não é nosso e não é para nós, manter os pés na terra talvez seja uma sina, quase, como diria Suassuna, a marca de nosso estranho destino sobre a terra. Se os rios e os mares podem ser visto como esse deserto em que as coisas que chegam por meios desconhecidos, podemos pensar a terra, a geografia, a matéria, como o lugar onde o deserto se encontra e se intensifica porque, além de sua composição devastada, há a perda de algo essencial: o impossível. A vida frente a um rio é também uma vida de beira.

Beira Rio, Beira Vida, do escritor piauiense Assis Brasil conta a história da vida de três gerações de mulheres que vivem a beira do cais do Rio Parnaíba. Seus destinos, marcamos por essa vida de beira, as coloca diante da constante presença de marinheiros, com quem deitam todas as noites em busca de sua sobrevivência. Essa sina das gerações, que começa, pelo menos na obra, com Cremilda, passando por sua filha Luiza e chegando a mais moça, Mundoca, nos desvela a vida como um inevitável e melancólico fluxo de tempo como se ficássemos postos diante de suas próprias regras sem possibilidades de nos movermos.

Perto dessas mulheres, que Assis em momento algum chama de prostitutas, uma vez que a questão não era o trabalho, a profissão, mas uma completa ausência de conhecimento de outro mundo, outra possibilidade de vida, podemos observar como o jogo de relações entre essa vida marginal – de margem, de beira – e o eterno fluxo de inda e vinda do capital, do mercado, com as viagens e passagens dos marinheiros, com o pequeno comércio local, são, de certa forma, um fator estrito de exclusão. É evidente que essa exclusão não é deliberada, planejada, composta, mas sistematicamente repetida por uma afetividade, quase como uma tradição.

Essas mulheres, empurradas e fixadas na beira, tem como uma perspectiva uma eterna presença e vivência do cais:

Certeza que só o cais existia realmente. E as coisas lhe aconteciam a partir dali e só tinham significação se começassem no cais. A pedra grande, aquela pedra quadrada menor tinham a marca do seu destino – era ali, um pouco próxima à esquina, um pouco distante do primeiro poste de luz, que o mapa de sua vida se fazia.

Além deste mapa que compunha a vida delas, havia também os homens que passavam, ficavam ou deixavam marcas. O primeiro deles é Jessé, preto, criado por Cremilda, amigo de infância de Luiza, com quem brincava pelo cais. Jessé tinha o sonho de trabalhar nos barcos, de ser também homem dos rios, mas tinha algo que lhe prendia a terra. Quando saiu, quando finalmente conseguiu, sonhava poder voltar e ficar com Luiza. Como dizia, o sonho de “Jessé era ver um peixe”. Ver e virar.

Outro homem que também marcara a vida daquelas mulheres foi Nuno, primeiro homem de Luiza, que não lhe prometera nada, mas lhe dera um filho, que nunca viera a assumir. Foi o contato mais próximo do que seria o amor, ou uma relação, contato, proximidade, corpo íntimo que ela teria. Apesar disso, Nuno, ao sair, sempre deixava dinheiro. Sempre pagava, mas para Luiza, era mais, era cais. Luiza, solitária, ao lado de sua filha, não cansava de repetir:

Mundoca, essa cidade vai matando a gente.

No entanto, a figura mais marcante da obra, pequena, fantasmagórica, quase inexistente, é Ceci. Ceci é uma boneca de pano que passa por todos as gerações e que, ao longo do tempo, faz companhia às esperanças infantis daquelas meninas. Depois, é deixada de lado e sua roupa estraga, envelhece, encarde, até vir outra que queira lhe dar mundo. Ceci é uma espécie de testemunha daquele mundo, daquela vida, daquela beira, daqueles sonhos natimortos nos corpos daquelas mulheres. E geração a geração, elas esqueciam uma frase simples, comezinha, que logo na primeira página do livro põe Ceci no mundo e põe o mundo em Ceci:

Ah, se ela soubesse como Ceci consola a gente.

O consolo de Ceci era, infelizmente, um consolo do esquecimento, passageiro, que não conseguia acolher. A solidão latente da passagem das gerações era a marca da repetição da mesma vida de beira. Mundoca, a mais nova, a esperança para parar de repetir o ciclo, também se perde em um mundo que não é feito para ela.

Para essa vida, Beira Rio, Beira Vida, uma melancólica tragédia do cais se impõe: o mundo te empurra pro rio e o rio te empurra pro mundo. O resto é beira.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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