Indique um Autor: Oswald de Andrade

José Oswald de Sousa Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)

Oswald de Andrade escreve na primeira parte de sua autobiografia – que nunca teve continuidade (o plano era escrever sua história em vários volumes) – que viu o primeiro poste de luz de sua vida ser instalado num dia comum, sentado na calçada em frente à casa onde morava quando criança, em São Paulo. A partir daí a vida nunca mais seria a mesma. Talvez seja possível relacionar sua obra inteira a esse poste.
Figura central do início do Modernismo brasileiro e famoso por ostentar um belo (e incomum para a época) fusca verde, OswÁld (como gostava de ser chamado, para ficar mais abrasileirado) formou o Grupo dos Cinco, junto com Tarsila do Amaral (com quem foi casado por anos), Anita Malfatti, Menotti del Picchia e Mário de Andrade, todos grandes artistas vanguardistas. Também foi um dos organizadores da Semana de 22, que juntou figuras de diversas áreas artísticas nacionais em apresentações de obras de literatura, pintura, escultura, teatro e música. O evento tornou-se um marco para a história do país, sendo influenciado pelas vanguardas europeias com que Oswald e os outros participantes tiveram contato em viagens e leituras, apesar de seu valor só ter sido reconhecido ao longo dos anos que se seguiram. O legado deixado por esses artistas é essencial até hoje, principalmente no núcleo literário e é indispensável conhecer ao menos parte da obra de seu principal agitador, que representou uma ruptura imprescindível com o que havia até então na área de linguagem, comunicação e literatura.
Amigo de figuras ilustres e outras nem tanto, Oswaldo casou-se seis vezes, sendo uma de suas esposas a pintora Tarsila do Amaral e outra a extravagante Patrícia Galvão, a Pagu. Era íntimo de Mário de Andrade, que reconhecia como o melhor escritor modernista e com quem tinha discussões “famosas”. Em 1945, Oswald entra em colapso, pois não conseguira fazer as pazes com Mário antes que ele falecesse e diz que jamais se perdoaria por tal erro. Outra amizade digna de ser lembrada é a de Oliverio Girondo, poeta argentino cujo gênio forte era muito semelhante ao de Oswald e cujas temáticas de obras também se pareciam. Em 1922, Girondo publica o livro Veinte poemas para leer en el tranvía (Edição brasileira editora 34, 1ª edição, 2014, Vinte poemas para ler no bonde), que contém o poema intitulado Rio de Janeiro, apontando as mudanças pelas quais a cidade vai passando e que faz lembrar do poste de Oswáld, que se faz presente em sua obra, em sua vida cotidiana, nos escritos de seus amigos, nos lugares por onde viaja, em sua tentativa de levar a poesia a todos os lugares e todas as pessoas do mundo, possíveis e impossíveis, assim como a eletricidade que chegou à sua rua sem que ele esperasse e mudou sua vida.
Eis aqui o especial do autor:

utopia

Obra-prima: A utopia antropofágica

Impossível pensar a literatura brasileira sem o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade (Junto com outros manifestos seus em A utopia antropofágica – Editora Globo, 2005). Numa época em que as vanguardas europeias vociferavam por mudanças no meio artístico, Dalí derretia relógios, Picasso quadrificava guerras civis, Duchamp expunha um mictório no museu, e a tecnologia avançava correndo pelo território nacional, como ficar imune? Reza a lenda que, ao terminar o quadro Abaporu, Tarsila do Amaral fez uma chamada telefônica para Oswald de Andrade e pediu que ele viesse correndo, pois acabara de pintar um quadro em que o representava. Abaporu, em tupi, significa antropófago. Não era só de vanguarda europeia que viviam os modernistas brasileiros; havia Catiti, Guaraci, Iara, Exu, Rousseau, o Jabuti, o totem e o tabu, Macunaíma, Iracema, a Revolta da Vacina, Tiradentes, Padre Vieira. No mesmo ano do nascimento do Oswáld laranja, de pés enormes e cabeça pequenina, sentado ao sol rodeado por cactos e folhas de bananeira, nasceu também o manifesto antropofágico, apontando as ambições e os desafetos dos modernistas da década de 1920.
A única regra era clara: comer. Assim como os índios antropófagos que viviam no Brasil séculos atrás; comia-se apenas os guerreiros mais destemidos, os curandeiros mais poderosos, os mais inteligentes e os mais corajosos, para que suas qualidades passassem àqueles que os devoravam no grande ritual. Só a antropofagia seria capaz de nos tornar completos. Oswáld não pregava o canibalismo, pois não faria sentido.
“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.”

pau brasil

Primeiros passos: Pau-Brasil

Em seu primeiro livro de poesia, Pau Brasil (editado recentemente pela editora Globo, 2012), Oswald de Andrade opta por dividir em partes que relacionam a formação histórico-cultural brasileira de maneira pitoresca. Começando com Por ocasião da descoberta do Brasil e terminando em Lóide brasileiro, passa por marcos da “construção” do indivíduo nacional, como Pero Vaz de Caminha, Carnaval e Roteiros de Minas. Há uma em especial, chamada Postes da Light, que contém o conhecido Pronominais:

“Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro”

Além desse, há o também conhecido Atelier, que fez em homenagem a Tarsila do Amaral, sua esposa à época da elaboração do livro, que contribuiu com desenhos para a primeira edição, assim como para a edição de seu segundo livro de poesia, Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade.

1 homem

Vale a indicação: Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe

Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe (Editora Globo, 2012) é o primeiro livro do que seria uma coleção de obras autobiográficas de Oswald de Andrade. Entretanto, o autor nunca conseguiu escrever sequer uma continuação, apesar de ter morrido aos 64 anos. O mais curioso do livro é a relação do autor com as mudanças que vinham ocorrendo no Brasil da virada do século e nas duas décadas posteriores (até 1920). Vemos um Oswald muito jovem, em processo de reconhecimento de sua própria identidade e crescimento junto aos fatos que marcaram toda uma época. Apesar de pouco lido, é um livro que vale muito a indicação, não só para quem gostaria de compreender melhor o autor, mas também os desdobramentos da belle époque paulistana e europeia, de maneira leve e bastante irônica, com a marca cômica característica de sua escrita.

oswald_de_andrade pintado

Leia também essa outra resenha de Oswald de Andrade:

- A morta:

http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/10/17/a-morta-oswald-de-andrade/

Laiane Flores
quer que você leia isso aqui: "Os livros são objetos transcendentes Mas podemos amá-los do amor táctil Que votamos aos maços de cigarro Domá-los, cultivá-los em aquários Em estantes, gaiolas, em fogueiras Ou lançá-los pra fora das janelas (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos) Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los Podemos simplesmente escrever um: Encher de vãs palavras muitas páginas E de mais confusão as prateleiras"

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