O Tempo, de Clarice Lispector

Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco, 2014
Páginas: 264

Era mais fácil ser um santo que uma pessoa!
Laços de Família

O tempo de Clarice Lispector não é o meu ou o nosso tempo. Pode-se dizer que tampouco é o tempo dela, a não que ser que se considere este como um tempo que escapa, que se escavai e se constrói somente naquilo que se antevê ou se pós-vê, mas se revela no agora com uma irradiante potência. Pensar o tempo, para Clarice, não se trata de pensar em uma linha, uma reta ou uma seta, mas num trajeto, num processo, no choque entre o passado acumulado e o devir pulsante.

O Tempo, de Clarice Lispector, é um apanhado de citações da autora contidas em seus livros e compiladas em apenas um volume. Em certa medida, é a continuação do livro lançado pela Rocco chamado As Palavras, mantendo o mesmo modelo de dividir a obra em partes com frases específicas de livro a livro. Neste volume, citam-se as Correspondências e as obras Laços de Família, Felicidade Clandestina, O Lustre, A Cidade Sitiada, entre outras. A curadoria do trabalho é de Roberto Corrêa dos Santos, semiólogo, que busca no intraduzível de Clarice a possibilidade de se reencenar suas obras, compondo um novo atlas à partir daquilo que se sente durante a leitura.

Em O Tempo, a alta Clarice vai além de todo espanto, além de toda beleza: atinge o inantigível – o sobre-humano; em O Tempo mais provas de. E agora provas do abissal, meios de alargar-se. Ousemos.

Leia a resenha de As Palavras, de Clarice Lispector: http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/12/04/as-palavras-de-clarice-lispector/

Assim, o que se têm é, talvez, a Clarice que Roberto elegeu, ou uma Clarice desconhecida, estranha, que se revela mais pelo que não está escrito do que pelo que o papel adere. Trata-se de uma obra, ao mesmo tempo, mais fluida, pois não nos agarra com as narrativas esponjosas de Clarice, porém, também, um tanto quanto mais densa, pois mais elíptica, silenciosa, fracionada.

Creio que O Tempo é uma obra que tenta atualizar Clarice para os nossos tempos: um tempo em que as coisas citadas incorporam-se mais a pele do que as que “levam tempo”, como os romances, as narrativas, as novelas e as tramas. Assim sendo, a obra possui um paradoxo. Será o tempo de Clarice o mesmo que o nosso? Que tempo podemos compartilhar com ela? A resposta deste paradoxo estará nas mãos dos leitores e de sua capacidade de se aproximar da autora de forma distinta, revigorada. Se Clarice Lispector buscou sempre em sua obra uma espécie de “entendimento” das coisas, mais do que uma sabedoria, creio que O Tempo é o livro que pode expor este processo, em devir, como diz a própria:

Um dos indiretos modos de entender é achar bonito. Do lugar onde estou de pé, a vida é muito bonita. Entender é um modo de olhar. Porque entender, aliás, é uma atitude.

E arremata:

O que a gente não entende, se resolve com amor.

Assim se faz o elo da obra com o leitor, com o tempo e com mundo: pelo afeto. Aquilo que se desentende na obra, através de seu paradoxo, pode ser resolvido pelo afeto, pela aproximação, pela capacidade de translucidar no outro um entendimento profundo. O Tempo é uma obra breve, mas que nos solicita tempo. Será que ainda nos resta algum?

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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