Companhia, de Samuel Beckett

Autor: Samuel Beckett
Editora: Francisco Alves Editora, 1982
Tradução: Elsa Martins
Ilustrações: Jader Marques Filho
Páginas: 215

 Investigar a solidão é algo que sempre escapa de nós. Ainda mais quando é a arte que enfrenta essa tarefa. Acontece que, grande parte das obras que tratam da solidão, fazem-na de maneira “acompanhada”, na qual existe uma grande presença chamada solidão. Árduo, talvez seja, tentar encontrar a solidão em si, a solidão da palavra, da língua, solidão do corpo sem gesto – porque um corpo sozinho não encontra motivos para se mover. Esta solidão mais profunda, mas ao mesmo tempo, tão pulsante: está na voz que não diz, no corpo antes do movimento e na luz que se faz sombra. Esta é a investida de Samuel Beckett em seu último romance Companhia.

Companhia (1980), de Samuel Beckett é sobre um homem que se encontra deitado, imóvel, em um ambiente escuro indeterminado que, de momentos em momentos, escuta uma voz. Esta voz, primeiro, lhe conta o que ele já sabe: que está deitado no escuro. Depois, conta-lhe o dia em que ele nasceu. Só.  É o que propõe Beckett:

Esta, pois, é a proposta. Uma voz que fala do passado, a alguém deitado no escuro.

Isto porque, a voz, que varia de distância, direção e entonação e voz, começa a narrar pequenas histórias para esse corpo deitado. Histórias pretensamente do passado. Mas esse corpo, que não tem memórias se questiona se esta voz fala dele próprio, fala da própria voz ou conta a história de uma terceira pessoa. A única certeza, pelo menos provisória é que “Vais acabar como estás agora”. Só.

A questão, então, é que, sem poder precisar o intuito da voz, se é que há realmente uma voz material soando, talvez, toda a questão trate do próprio título do livro: uma companhia. A voz, mesmo que despida de sentido, direção, rumo ou objetivo é ainda uma companhia, ou

Um outro, criando tudo para ter companhia. Na mesma escuridão que sua criatura, ou em outra. Imagina depressa. Na mesma.

A linguagem densa de Beckett, a narrativa quase inacessível que se volta de maneira centrípeta para dentro de si própria, como se uma apocalipse houvesse corroído qualquer mundo que não fosse a própria palavra, que já sai abortada ou arrependida, é um desafio à leitura, mas também um projeto de um novo entendimento de mundo. A devastação do mundo beckettiano que suprime tudo: a luz, o som, o toque, o corpo do outro e faz com que o homem se coloque diante de um imenso nada sem porvir expõe não só o limite da arte e da literatura, mas a zona fronteiriça entre o sentido e o não sentido. O ponto final onde a companhia, enfim, vira solidão:

Criando tudo, inclusive a si próprio, pela companhia.

Entretanto, tanto a personagem que ao se reconhecer desaparece, quanto a narrativa de Beckett, mínguam no momento em que tomam consciência de si. Um procedimento comum do autor que ao minguar suas possibilidade se vê, muitas vezes, no abismo em que o silêncio é o que resta, talvez no lapso hamletiano.

Companhia é uma obra densa, mas de leitura breve. Mais uma escrita de Beckett que soa como anotação, exercício e que vai fundo no fundo dos fundos.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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