O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello.

Editora: Abril Coleções; 2010; 314 páginas.

Primeiro importante romance de Pirandello e, segundo a fortuna crítica, o responsável por sua projeção pública como escritor, O falecido Mattia Pascal aborda questões como a identidade na vida pública e as máscaras sociais que a envolvem e a multidão de vidas que poderíamos viver, mas não vivemos. Pensamento parecido com o que Rousseau expressa no Contrato Social de que : “O homem nasceu livre e, não obstante, está acorrentado em toda parte”.AuguriPirandello

Para quem é fã das narrativas dos autores defuntos, eis aí um excelente aperitivo bem ao molde das memórias de Brás Cubas, porém com uma diferença essencial: Mattia Pascal apenas finge estar morto… ou será que não?

Em resumo, a obra do escritor italiano que foi publicada pela primeira vez em 1904, conta a história de um sujeito que após ser declarado morto por engano nos jornais, resolve se aproveitar da situação para assumir uma nova identidade e começar uma vida nova com o nome de Adriano Meis. O problema é que Mattia Pascal acreditou que ao assumir essa nova identidade poderia ter liberdade para fazer o que lhe apetecesse. De fato, ele consegue desobrigar-se da vida pregressa e das relações familiares e viajar pelo mundo sem assumir qualquer compromisso, entretanto, percebe que não se sente feliz e que aquilo não é exatamente liberdade. Cansado de viajar e de se hospedar sempre em hotéis e sentindo falta das relações pessoais e sociais, Mattia Pascal, agora sob a identidade de Adriano Meis, decide fixar residência em Roma onde conhece Adriana e decide estabelecer uma relação amorosa com esta.  Os dois se apaixonam, mas seu segredo logo o impede de ser feliz, Adriano Meis percebe que não pode ser sincero e contar toda a verdade acerca da morte de Mattia Pascal e decide novamente forjar sua morte para retornar à cidade natal para reassumir a identidade do falecido Mattia Pascal.

O texto, escrito em primeira pessoa, apresenta no segundo capítulo ou na “Segunda premissa” a motivação do narrador, pois é somente ao escrever este livro, já no final de sua vida, que Mattia Pascal se dá conta da importância do amor ao conhecimento e reconhece que sem educação, sem estudo, sua vida caiu no abismo e se transformou em uma jornada errante. Decide então, depois de restaurada sua primeira identidade, escrever o manuscrito para que se algum leitor curioso, algum dia por ventura vier a folheá-lo, possa tomar conhecimento da sua trajetória e esta possa lhe servir de ensinamento. Entretanto, com a condição única de que o manuscrito só seja aberto e lido cinquenta anos depois de sua terceira e definitiva (ou não) morte.

A história é envolvente e intrigante e nos leva à angústia em diversos momentos. A Odisseia de Pascal não é exatamente o que se possa chamar de uma viagem tranquila. A morte, que para ele representava, a princípio, a liberdade por meio da ressurreição, acaba por levá-lo a um abismo infindável do qual parece não haver volta. É exatamente ao modelo do Ulisses de Homero, uma descida aos infernos. No final, o que encontramos em Pascal é um homem cansado e arrependido em busca do seu lar, da sua vida, das suas emoções, da sua identidade.

O regresso de Mattia Pascal à sua cidade natal acontece “entre a ansiedade e a raiva (não sabia qual das duas mais me agitava, mas talvez fossem uma coisa só: raiva ansiosa, ansiedade raivosa), não me preocupei mais se alguém me reconheceria antes de chegar ou recém-chegado a Miragno”. Neste estado de nervos o falecido retorna, mas o cenário já não é o mesmo: Como estarão sua antiga esposa Romilda e sua sogra Pescatore? Será que ainda estarão vivas? Será que reconhecê-lo e aceitá-lo-ão de volta?

As respostas para estas e outras perguntas podem ser facilmente encontradas no romance, não deixe de conferir!

Francisco Venâncio
Formado em Letras pelo Centro Universitário Padre Anchieta em Jundiaí/SP.

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