As Memórias de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle

Autor: Arthur Conan Doyle
Editora: Zahar, 2014
Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges
Ilustrações: Sidney Paget

Um personagem quando ganha mundo – e com isso digo: ganha povo, gente que conheça, fale, pense e reconheça seus passos – se torna parte de uma história. Sua biografia deixa de ser apenas ficcional para coabitar nossa vida comum, nossa memória vivida e nossa existência. É impossível pensar em Portugal, por exemplo, sem pensar nas fabulações de Camões a respeito das grandes navegações. Aliás, as navegações só são grandes por conta de Camões, ouso dizer. O mesmo se dá quando a literatura atravessa uma fronteira e se torna não só referência, vida, mas paradigma para um gênero ou futuro de uma sociedade. É o que acontece com Sherlock Holmes.

As Memórias de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, são uma coletânea de contos narrados pelo seu fiel escudeiro, o doutor Watson, a partir de lembranças, notas e memórias que ele guarda de seu amigo Sherlock. Os contos, inclusive narram uma espécie de “outra face” de Holmes, algo que revela tanto sua vida pessoal quanto seus casos e suas investigações.

Conhecemos na obra, por exemplo, o primeiro caso do investigador, ainda jovem e estudante. Conhecemos seu irmão, grande e perspicaz como Holmes, mas sem a mesma vitalidade e energia. Trafegamos, inclusive, por pretensos fracassos em que os casos se resolvem meio que por acaso, sem grande intervenção do detetive ou, até, mesmo com a solução, casos que não chegam ao fim esperado.

O último conto do livro, chamado O Problema Final, é o mais emocionante, pois conta o derradeiro final de Sherlock Holmes, na perseguição de seu maior inimigo, Moriarty. Watson conta, passo a passo, como seu amigo tentou desmantelar uma enorme rede de crimes que, de tão bem articulados, jamais citavam o nome do bandido. Ao fim, Holmes e seu rival se encontram em um fim absolutamente inesperado, em que a voz do detetive jamais irá soar novamente sobre nossas mentes. É o fim de um personagem. Será?

Em um momento o próprio diz:

Qual o significado disto, Watson? Que objetivo é servido por este círculo de desgraça, violência e medo? Isso tem de tender para algum fim, do contrário nosso universo é regido pelo acaso, o que é impensável. Mas que fim? Este é o grande e perene problema de cuja solução a razão humana está tão longe como sempre.

O interessante em lermos as memórias de Sherlock Holmes é que lemos nossa própria memória. Toda nossa literatura de suspense, investigação de crimes e mistérios, bebe na fonte de Doyle e se utiliza de seus mecanismos para construir as narrativas (talvez Doyle e Agatha Christie sejam as duas referências principais), portanto, ler as memórias de Sherlock é ler como nasce o gênero, como ele escapa de si próprio e se ultrapassa, se transformando numa espécie de biografia afetiva do interesse e relação que nasce em nós a respeito de Sherlock.

Entretanto, como ponto fraco, temos contos excessivamente falados em que as soluções quase nunca acontecem in loco, mas nos são transpostas via narração de um personagem, de uma carta ou pelo próprio detetive. Este fato nos distancia um pouco da sensação de estar dentro do crime e nos coloca novamente nas narrativas de salão, comum ao gênero fantástico de dentro do romantismo.

De qualquer forma, As Memórias de Sherlock Holmes, me parece, fazem um excelente panorama do personagem, trazendo-o mais para perto de nós e, tendo como base nosso carinho por ele, nos dá mais do que apenas crimes e resoluções geniais. É uma obra para fãs, mas também para os que querem conhecer o maior investigador de todos os tempos.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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