Indique um autor: Jack Kerouac

Jean-Louis Lebris de Kerouac, mais conhecido como Jack Kerouac, nasceu em Lowell, Massachusetts, a 12 de março de 1922, e faleceu, aos 47 anos, em 1969, em St. Petersburg, Flórida, vítima de uma cirrose hepática agravada pelo seu abuso de álcool. De origem franco-canadense, era o mais novo de três filhos e apenas começou a aprender inglês aos seis anos – para em seguida começar a escrever e nunca mais parar. Embora tivesse uma vida pacata quando comparada a de outros escritores, Kerouac soube transformar a sua e, ao mudar-se para Nova Iorque a fim de cursar a Universidade de Colúmbia, começou de fato sua carreira literária após conhecer Lucien Carr, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Herbert Huncke e Neal Cassady, entre outros. Com uma turma de amigos tão agitada e desse calibre, Kerouac acabou por abandonar a universidade dois anos depois, pôs o pé na estrada, assumindo para si a tarefa de desvendar a alma da América através de suas aventuras e de sua escrita, e deu início aquela que seria conhecida como a Geração Beat.

Kerouac se eternizou, e com cerca de 20 livros de prosa e 18 de poesia, cartas e ensaios, influenciou e continua influenciando gerações e gerações de artistas, como Tom Waits, Bob Dylan, Jim Morrison, Walter Salles, Caio Fernando Abreu, Charles Bukowski, Waly Salomão, Paulo Leminski, Cazuza e Gabito Nunes. Aqui estabelecerei, não num ranking, alguns dos livros de Jack Kerouac que considero os mais interessantes para qualquer leitor que queira se iniciar nos caminhos poéticos da escrita sinuosa do “Rei dos Beatniks” – título esse que ele mesmo recusava. Para tanto, me basearei não na vasta quantidade de livros escritos e publicados pelo autor, mas naqueles que foram traduzidos para a língua portuguesa e publicados no Brasil (em sua maioria pela editora L&PM).

 PRIMEIROS PASSOS

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Primeiro romance de Kerouac e obra que marcou a sua estreia literária, Cidade Pequena, Cidade Grande foi publicado em 1950 sob o nome de John Kerouac, e escrito entre uma viagem e outra, quando ele voltava para sua casa em Nova Iorque, após ter sido dispensado da Marinha por razões psiquiátricas. Fortemente influenciado pelo estilo tradicional do escritor Tom Wolfe, o livro, mesmo tendo sido mencionado em On The Road, é bastante diferente de todos os demais, com uma narrativa densa, às vezes truncada, mas que se torna fluida quando conseguimos liberar a mente para a velocidade das palavras, com as quais Kerouac brinca, bem como tempo e as mudanças pessoais – uma das chaves para se entender o livro. Na narração, ele faz um dedicado e cansativo exercício de descrição, detalhando cada pedaço, lugar e acontecimento da história. Quando se aprofunda o olhar, porém, o que salta aos olhos são os conflitos, as tristezas e rachaduras da vida.

Contudo, apesar de quase épico, o livro ainda não traz as principais características que o tornariam famoso posteriormente, como o uso do fluxo de consciência. A história contada, como sempre biográfica e baseada na vida do próprio Kerouac, é a história da família de George e Marge Martin, desde os dias vividos na pequena cidade de Galloway, até o pós Segunda Guerra Mundial, quando o cenário muda para Nova Iorque. O livro descreve as decisões, experiências e o amadurecimento pessoal de dez personagens (os pais e seus oito filhos), focalizando ora em Peter, ora em Joe ou Francis, e na eterna busca pelo equilíbrio dos valores aprendidos na cidade pequena e do interior quando se vive no ambiente selvagem da cidade grande.

O MAIS DIFERENTE

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Além de ótimo um escritor de prosa, com criações que revolucionaram pelo estilo musical, informal e espontâneo, Kerouac também foi um poeta de qualidade, dedicado e prolífico. Ele explorou diversos estilos poéticos diferentes, das mais diversas tradições, como a ode, o soneto, o blues e o haicai – criação japonesa ligada ao zen-budismo e sempre relacionada pelas imagens vivas que traz em seus “três versos curtos de dezessete sílabas métricas”, como fotografias singelas. Ele entrou em contato com essa produção através do poeta Gary Snyder, e suas experimentações nesta área preencheram cartas, diários, blocos de notas e até mesmo romances, como “Os vagabundos iluminados”. Só que no Brasil essa sua façanha ainda é pouco conhecida. Kerouac adaptou o haicai à língua inglesa, a o chamou “pop”, como o som de um milho que estoura na panela prestes a virar pipoca, e assim deve ser entendido o seu “haicai americano”: uma criação ocidental que “simplesmente diga muita coisa em três linhas breves em qualquer língua ocidental. Acima de tudo, um haicai deve ser muito simples, livre de truques poéticos, capaz de evocar algo e ainda assim ser tão delicado e gracioso como uma Pastorella de Vivaldi”. Logo, em suas fotografias poéticas de três versos não há a enorme preocupação com a rima, a métrica e a estrutura como os demais poetas dessa tendência, mas o que interessa é a mensagem que ele consegue passar. E vale dizer: ele faz isso muito bem (embora um ou outro poema não tenha me convencido, nem chamado a atenção).

Esta seleção foi compilada e editada, inicialmente, por Regina Weinreich, especialista em literatura beat. O livro, depois de pronto, reuniu aproximadamente quinhentos poemas, divididos em duas partes: a primeira (“Livro de Haicais”) incluiu os textos que o próprio Kerouac queria que fossem publicados; a segunda (“Cadernos de Anotações”), dividida em quatro eixos (Primavera, Verão, Outono e Inverno) resgata as produções escondidas em seus vários cadernos, e apresentados cronologicamente.  Em 2013, o livro foi publicado no Brasil em uma edição bilíngue primorosa, com tradução dedicada de Claudio Willer e fac-símiles das anotações do autor em seu caderno. Por ser um dos poucos livros com a poesia de Kerouac publicados em língua portuguesa, esta obra figura aqui como a mais diferente, e revela um lado seu menos conhecido, mas não menos importante.

VALE A INDICAÇÃO

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Dono de um estilo único, rico, denso, alvo de críticas e elogios – Truman Capote disse, certa feita, que Kerouac não escrevia, “datilografava” –, ele não escrevia de uma forma estruturada e coerente, nem se importava em usar marcos tradicionais, como pontuações. Sua escrita foi revolucionária ao trazer com mais vigor e energia que nunca o “fluxo de consciência”. Ótimo exemplo de seu estilo é o livro “Os Subterrâneos”, que teria sido escrito durante três dias e três noites, criado a partir do mesmo vislumbre inspiracional que gerou “On The Road”.

A história narrada é o romance de Leo Percepied e Mardou Fox, frequentadores dos subterrâneos de São Francisco, sendo ele o alter ego de Kerouac e ela, uma moça metade índia metade negra. Na verdade, a história contada é o relacionamento que o autor manteve com uma moça negra no verão de 1953. Para quem está começando a conhecer os beats, este é um ótimo início, que pode parecer um tanto difícil no começo da leitura, mas que depois se desenrola facilmente, num verdadeiro desabafo, e nos mostra uma história de becos, quartos escuros, amor, loucura, desencontros, sonhos partidos, artistas visionários e experiências vividas por quem está à margem da sociedade. E este, acima de qualquer outra coisa, é um livro de amor. Um livro poético sobre amor e solidão escrito por um mestre. Poesia em forma de prosa.

Confira a resenha completa aqui:
http://indiqueumlivro.literatortura.com/2014/07/22/os-subterraneos-de-jack-kerouac/
ou aqui:
http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/08/13/os-subterraneos-jack-kerouac/

A OBRA-PRIMA QUE VIROU FILME

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Sem dúvida alguma, mesmo que não seja considerado por todos os seus fãs o seu melhor livro, On The Road (ou Pé Na Estrada, como alguns chamam em português) é sua segunda obra, e a mais conhecida. Escrito originalmente em abril de 1951, segundo a lenda durante três semanas e entorpecido por benzedrina, café e jazz, mas só publicado em 1957 após várias alterações e cortes exigidos pelos editores, é, de acordo com as próprias palavras de Kerouac, uma história sobre ele, Neal Cassady e a estrada. Imediatamente após a publicação, o livro se tornou um clássico, sendo considerado um dos novos grandes romances americanos, inspirando jovens ansiosos por desbravarem o espírito das estradas.

Com sua já tradicional escrita autobiográfica, Kerouac iniciou neste livro sua técnica de prosa espontânea, e contou nele a história da relação de Sal Paradise, que narra os acontecimentos, com seu amigo Dean Moriarty em sua viagem pela lendária Rota 66 e pelo México, atravessando os Estados Unidos de Nova Jérsei até a Costa oeste, com muito sexo, drogas, liberdade e descobertas pessoais, apresentando personagens tão diversos e característicos daquela geração que ele descreveu tão bem. Importante lembrar que, segundo Antonio Bivar, citando o especialista Tim Hunt, a versão que temos de On The Road, originalmente publicada pela Viking Press, é a quarta versão escrita da história, e que Visões de Cody, escrito entre 1951 e 1952 (e publicado integralmente apenas em 1973) seria a quinta e final versão do livro, a qual Kerouac elegeu como sua obra-prima, afirmação com a qual Allen Ginsberg concordou. O autor acreditava não ter conseguido, em On The Road, pôr toda a essência de Neal Cassady, sua grande inspiração para a obra, e por isso escreveu Visões de Cody, onde Neal recebe o pseudônimo Cody Pomeray e ele retoma, com novo ritmo, episódios que já haviam sido descritos no outro livro, indo além da mitologia autobiográfica, levando até o limite a experiência beat.

Há alguns anos, foi publicada no Brasil a versão original de On The Road, exatamente como Kerouac a escreveu no ano de 1951: um só parágrafo em um rolo, direto, criado num só fôlego. Além de ser mais selvagem, poética e desconcertante, esta versão é mais original que a publicada posteriormente, apresenta os nomes reais dos envolvidos na história (além de Cassady temos Burroughs, Ginsberg e Hal Chase, entre outros) e nos faz sentir a real sonoridade urbana por trás da obra, os vislumbres que inspiraram Kerouac e o fizeram escrever uma história que resiste ao tempo por apresentar a viagem que qualquer jovem sonha em fazer.

Confira a resenha completa:
http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/10/26/on-the-road-de-jack-kerouac/

Outras obras:

Cenas de Nova York e Outras Viagens, de Jack Kerouac

O livro, da edição 64 páginas da L&PM Pocket, é uma reunião de contos de Jack Kerouac, poeta e escritor beat americano, amigo de toda aquela galera: Allen Guinsberg, Corso, Ferlinghetti,Burroughs. No total, são quatro contos mais um poema em homenagem a Rimbaud. No primeiro deles, Kerouac fala um pouco de si, conta quem é (ou quem acha que é) e mapeia o que seria sua função no mundo: escrever e pregar a bondade universal. Segundo o próprio, ele não é um beat, mas um estranho e solitário, católico, louco e místico.

Confira a resenha completa:
http://indiqueumlivro.literatortura.com/2013/10/29/cenas-de-nova-york-e-outras-viagens-de-jack-kerouac/

Por Luiz Ribeiro

João Meireles
carioca e poeta. twitter: @_JaumMeireles instagram: @jaummeireles

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