O Ateneu, de Raul Pompeia

Atualmente, dezenas de livros são lançados anualmente e que possuem conteúdo de jovens em fase de descobrimento – seja seu lugar na sociedade, seus desejos sexuais. Veja alguns livros de John Green – como Quem é você Alasca? –, As Vantagens de Ser Invisível e o recém-lançado e já badalado Selva de Gafanhotos.

Esse estilo de história, porém, não é novidade. Carlos Heitor Cony escreveu suas histórias no seminário em Informação ao Crucificado, por exemplo. E, em 1888, Raul Pompeia escreveu O Ateneu.

Quando lançada, a obra de Pompeia foi um choque. A história é sobre o garoto Sérgio – alter ego de Raul, na verdade. Ele é mandado pela família para um internato. E, em meio a muito sofrimento, vai constituindo sua identidade e personalidade. E o que mais surpreende na obra, ao se pensar que foi escrita no século XIX, é a presença de alguns elementos no enredo: homossexualidade, a má formação da elite brasileira, o abuso de personalidades religiosas em internatos.

E todo esse enredo profundo, reflexivo e intenso é colocado nas 260 páginas da edição da Zahar de maneira elegante. Pompeia tem uma escrita que não perde o fôlego e a classe em momento algum. Isso, talvez, possa fazer com que muitos achem a narrativa – principalmente no começo – um tanto quanto maçante. Mas o desenvolver da história acaba por dissolver essa sensação com o passar das páginas.

Além disso, a construção do personagem Sérgio é algo ímpar na literatura brasileira. Após ler a obra, classifico o personagem como um símbolo da literatura brasileira, ao lado de Dom Casmurro; Brás Cubas; Leonardo, de Memórias de um sargento de milícias; Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas.

O livro, porém, não é de fácil leitura. E não por causa da narrativa ou tipo de escrita, mas sim pelo sofrimento do autor. Vê-se claramente que Sérgio é Raul Pompeia. E fica claro que ele sofreu vivendo aquilo e, durante a escrita, revivendo. Não é à toa que o autor se suicidou aos 32 anos com um tiro no peito.

Apesar de difícil, a leitura flui de maneira incrível. As páginas correm. O crescente sofrimento do personagem acompanha o fluxo e a leitura vai se tornando mais intensa com o passar do tempo. É difícil ler, sim. Mas é preciso e altamente recomendável. Com O Ateneu, Pompeia registrou um pedaço da história e da sociedade brasileira. Para entender o Brasil hoje, precisa entender a história dele. E O Ateneu pode, sem dúvidas, ajudar nesta tarefa.

Também há de se ressaltar a qualidade da edição da Zahar. A capa é bonita e chama muito a atenção. O que rouba a cena, porém, são as ilustrações do próprio autor e as notas de Aluizio Leite que auxiliam no entendimento da totalidade da obra.

Enfim, O Ateneu está na história da literatura brasileira e merece – e deve – ser lido por todos que se interessam pela história e formação do Brasil. Além, é claro, por aqueles que buscam boa literatura.

Matheus Mans
19 anos. Estudante de jornalismo que, nas horas vagas, é crítico literário, cinematográfico e musical. De vez em quando, tem ataques literários e se arrisca a escrever uma crônica ou um conto. Além disso, um devorador voraz de livros e obcecado por música brasileira.

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