David Copperfield, de Charles Dickens

David Copperfield, de Charles Dickens é uma obra impressionante de muitas formas. A mais óbvia, claro, é o seu tamanho. Na edição (maravilhosa, por sinal) da Cosac Naify, nos vemos diante de mais de 1200 páginas. Assusta. Mas depois que você supera esse medo de que nunca vai chegar no final, você consegue aproveitar melhor a riqueza da história.

Narrado em primeira pessoa, David Copperfield se apresenta como um autêntico Bildungsroman (Romance de Formação), lembrando fortemente os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de J. W. Goethe. Nele nos vemos diante do processo de construção do Copperfield maduro, passando por toda a sua infância e juventude em relato extremamente autoconsciente e exposto em ricos detalhes.

Ricos até demais, diriam alguns, pois o poder de observação do jovem Copperfield é de fato assombroso. Ele é capaz até de nos descrever minuciosamente as circunstâncias e conflitos que envolveram seu próprio nascimento, o que obviamente poderia ser baseado apenas no que ele ouviu dizer por outros e não pela sua própria lembrança do fato. Em outros episódios, esses de fato baseados na sua própria memória, ele é capaz de nos colocar dentro da cena de tal forma que, se fecharmos os olhos, podemos ver a cena se desenrolar claramente na nossa frente, como se assistíssemos a uma peça de teatro.

Rapidamente nos esquecemos do fato do livro ser tão longo e só queremos mais e mais. É uma história envolvente, com constantes reviravoltas e sofrimentos, com um herói extremamente empático do qual não conseguimos deixar de gostar. Em pouco tempo estamos torcendo por ele e lendo ansiosos pela próxima desventura que estará em seu caminho.

E as personagens supostamente secundárias, que não são nem um pouco menos importantes na história que nosso herói, não deixam nada a desejar. Dickens os constrói brilhantemente, de maneira que são interessantes, instigantes e muito reais. Constantemente nos pegamos pensando que Peggotty nos lembra aquela babá da infância ou aquela tia amorosa, ou que Steerforth lembra aquele jovem mais velho, querido e admirado por um grupo crescente de meninos mais jovens, todos querendo ser como ele, ou ainda que os Murdstone lembram uma professora mais severa, adepta de uma educação baseada em obediência e castigos físicos, pensamento infelizmente ainda presente hoje, mais de 150 anos depois da publicação de David Copperfield. As personagens são extremamente realistas e não é difícil descobrir-se em um ou mais deles.

Não por acaso, muitos críticos buscam na vida de Dickens as referências para essas personagens. Particularmente, não sou muito a favor de uma interpretação muito autobiográfica de obras de ficção, mas não se pode negar que há, sim, traços da vida de Dickens que serviram de base para a história que ele constrói. Seu pai, por exemplo, parece ter sido um Sr. Micawber da vida real e, quando foi preso por dívidas, obrigou o jovem Dickens a ajudar a família financeiramente, trabalhando em um depósito de graxa de sapato por alguns meses.

No entanto, seria um equívoco supor que isso quer dizer que David Copperfield é uma espécie de alter ego de Charles Dickens. Há semelhanças, mas há também diferenças. É importante, portanto, deixar um pouco de lado o que sabemos da vida pessoal de Dickens e deixar a história de Copperfield falar por si mesma.

Resenha por Maíra Protasio – Mestranda em Estética e Filosofia da Arte na USP, sou escritora, obcecada por literatura e jamais serei vista sem um livro na bolsa.

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