Dizem que os Cães Veem Coisas, de Moreira Campos

Moreira Campos é um escritor de estilo único, de originalidade reconhecível no quadro literário de tantos outros autores cearenses. Sua preferência em retratar os personagens sem o mínimo de heroísmo contrasta com o humor e a ironia, sem contar também com o misticismo, o sobrenatural, jogado numa linha ou outra. Esse modelo de narrativa faz com que suas histórias sejam tanto um passatempo, quanto um objeto de pesquisa profunda.

Em grande parte – se não sempre –, essa profundidade se revela no psicológico de suas personagens, construindo e reconstruindo num viés de “retorno ao útero”, “voltar ao feto”. Contos como Lamas e Folhas retratam bem esse aspecto, no qual o garoto se faz muito ativo no início, alegre e cheio de vida, para no fim resultar em sua inércia – literalmente, em sua morte. Em outros casos é retratado como simplesmente o quê da morte, como é o caso de As Corujas, na qual durante toda a curta narração somos bombardeados com elementos mórbidos, com a descrição de um leito de morte. Como é o caso também de Dizem que os Cães Veem Coisas, título desta obra. Parecido com Lamas e Folhas, este trata da vida e da morte numa perspectiva fantástica, da própria morte, mesmo sem ser a mesma que narra, pois é a protagonista.

Mas pode se mostrar num aspecto um tanto diferente, como é o caso de Os Estranhos Mendigos. Basicamente o conto fala sobre um policial, o cabo Matias que executa um assalto ao comércio e nunca é pego. Em paralelo, há a presença de mendigos calejados que pedem esmolas nas ruas. Aqui a morte não ocorre, mas simplesmente existe num modo gradual, o cabo Matias caiu no seu papel de cabo e passa a viver nas ruas, disfarçado de mendigo, após um assalto ao comércio.

Comecemos falando sobre este conto, Os Estranhos Mendigos. A interpretação do final é muito variada, podendo admitir o que foi posto no parágrafo anterior, ou que simplesmente o cabo teria fugido e o autor resolveu descrever o mendigo mais uma vez para dar efeito à narrativa – o que particularmente acho improvável. Ocorre semelhante com o conto Os Anões, o qual narra brevemente a rotina de um casal de anões e posteriormente um assalto à casa deles. O conto quase exerce um papel de crônica, se visto numa ótica geral dos contos de Moreira Campos, de como o conto se distancia dos demais em outros aspectos.

Características do cabo Matias como “… o calcanhar estropiado pelo espinho de mandacaru” (p. 55), também a descrição de barulhos na cumeeira da casa, que pela perspectiva do garoto poderiam ser ratos “… insinuava-se pela telha-vã na cumeeira da casa, onde os ratos guinchavam” (p. 56), confirmam a ideia de o cabo tornou-se um dos mendigos das ruas. No fim vemos que o mendigo que fala por último é caracterizado com os “testículos quebrados”, podendo inferir as duas ideias: os machucados do cabo se deram nos testículos quebrados; e os barulhos na cumeeira teriam sido uma fuga, resultando numa queda, portanto a lesão.

Voltando ao conto principal da compilação, Dizem que os Cães Veem Coisas, vemos uma narrativa marcada pelo simbolismo do cão e da morte. Toda a estrutura da narrativa nos faz ter uma ideia característica das reuniões familiares, com toques naturalistas na descrição de instintos sexuais e comportamentos vulgares e caricatos. Não só no conto principal que intitula a obra, mas em muitos outros, a presença de animais é marcante, como corujas, gatos, cães, jumentos, moscas etc. Enquanto o gato em muitos mitos é visto como o animal que protege a casa num todo, o cão seria um animal que protege o homem como um “guarda-costas” individual – sendo representado no conto como um anunciador da morte a fim de proteger a criança que morre. Há uma interpretação do conto que diz que tudo não passa de um presságio, e na verdade os cães realmente conseguiram salvar a criança, indiretamente. É interessante também observar a presença da figura da morte em várias culturas, como as da América Latina e a cultura celta, em específico, (chamada de banshee), que é vista como uma mulher, apresentada a nós simplória, mas satisfatoriamente, no conto.

Italo Machado
"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde moro. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.

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