O Mal Estar na Pós-Modernidade, de Zygmunt Bauman

A modernidade foi uma época (quase como sinônimo de civilização) que estabeleceu uma linha de sentido entre limpeza, ordem e beleza. Os limpos são belos, ao mesmo tempo em que vivem em um mundo ordenado: este é o sentido dos grandes projetos da modernidade, como o comunismo ou o capitalismo social-democrata, mas também como o fascismo nazista. Todos têm em comum serem projetos de limpeza e ordenação para gerar a beleza genuína, a sociedade última.

 Na modernidade, quanto mais abdicamos de nossas liberdades individuais, mais estamos seguros em uma sociedade rígida que estabelece lugares garantidos para seus sujeitos e daí é que vem o mal estar típico desta época: não podemos liberar nossos instintos, não podemos viver com plenitude porque temos que salvaguardar o laço social, a mútua confiança de todos os indivíduos no grande projeto.

 O Mal Estar na Pós-Modernidade traça alguns caminhos por onde esta lógica foi invertida e, em vez de abdicar um pouco da liberdade em troca de segurança, a regra da sociedade contemporânea é abdicar a segurança em troca de liberdade individual (traduzida em liberdade econômica).

 O livro, lançado em 1997, reúne de artigos e conferências de Zygmunt Bauman a respeito das novas características daquilo que, mais tarde, ele chamaria de modernidade líquida. Há digressões sobre filoshoariofia, arte, sexo, consumo, segurança e trabalho na época que simbolicamente despontou a partir da década de 60.

 Para Bauman, a característica principal da pós-modernidade é a desregulamentação. A tentativa de manter a limpeza do mundo moderno e, ao mesmo tempo, retirar as cargas de mal estar da repressão instintual resultou em sujeitos hedonistas que se guiam conforme suas próprias vontades – produzidas e guiadas pelo mercado ultraconsumista e produtor de estranhos.

 O sujeito hedonista aprecia novas experiências e está sempre aberto a novas aventuras. Nunca se sujeita a qualquer fixidez, seja de uma relação ou de um local de trabalho ou moradia (talvez por isso o objetivo das férias sempre seja viajar).

 Se o sujeito normal da pós-modernidade é consumista, aquele que busca prazer individual e não se encarrega de nenhum peso além de si próprio, o sujeito estranho desta época é o consumidor falho. Os que são pobres o bastante para não participarem do grande mercado consumidor estão excluídos de qualquer vida social, não se situam dentro dos locais onde vivem e, quando se mudam, nunca são aceitos (e nem se sentem em casa). São chamados de arrivistas pelo sociólogo. Quando permanecem em suas cidades, os consumidores falhos são banidos para guetos, o que nós podemos identificar como as favelas brasileiras.

 A busca incessante de prazer também tem seus dissabores: a angústia e provocada pela incerteza, parte estrutural do novo sujeito pós-moderno. A incerteza existe como duas formas de desordem do mundo moderno. A primeira forma de desordem é a dissolução dos países intermediários, do “Segundo Mundo”, e uma terceiromundialização generalizada. Já a segunda forma pode ser resumida em,

 A desatada liberdade concedida ao capital e às finanças à custa de todas as outras liberdades, o despedaçamento das redes de segurança socialmente tecidas e societariamente sustentadas, e o repúdio a todas as razões que não econômicas, deram um novo impulso ao implacável processo de polarização, outrora detido (apenas temporariamente, como agora se percebe) pelas estruturas legais do Estado de bem-estar, dos direitos de negociação dos sindicatos, da legislação do trabalho e – numa escala global (embora, neste caso, de modo muito menos convincente) pelos primeiros efeitos dos órgãos internacionais encarregados da redistribuição do capital (p.34)

 A incerteza está, como visto, diretamente relacionada com a possibilidade de nunca mais se empregar e passar a viver de seguro-desemprego para sempre – como os excluídos da vida social e econômica, que passaram a crescer estrondosamente nos anos 80. Segundo o autor, o Estado de bem-estar social deixou de ser uma ajuda temporária para se tornar fornecimento de donativos individuais e de caridade, já que alimentava um número cada vez maior de desempregados crônicos.

 De certa forma, conclui Bauman, até mesmo a atual preocupação com os direitos humanos e os órgãos de caridade são provas de que a ética do consumo perpetrada pelo Estado liberal não pode ser sustentada. Talvez, até mesmo as religiões na pós-modernidade tenham deixado de ser filosofia para a descoberta do além-vida e se transformaram em meras instituições de ajuda espiritual.

 De forma geral, Bauman procura estabelecer as consequências do aumento da liberdade individual em detrimento da segurança. Podemos relacionar com o contexto brasileiro ao percebermos o aumento das camadas consumidoras e, ao mesmo tempo, o aumento do conservadorismo no país. Não seria o conservadorismo um subterfúgio às incertezas presentes na pós-modernidade?

 Vinicius Siqueira é pós-graduado em sociopsicologia e é editor do site Colunas Tortas.

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