Roverandom, de J.R.R. Tolkien

Autor: J.R.R. Tolkien

Editora: Martins Fontes

Tradutora: Waldéa Barcellos

Páginas: 127

O ilustre autor da triologia O Senhor dos Anéis e O Hobbit escreveu muitas outras obras maravilhosas das quais nem todo leitor, que não é tão fã do autor ou que não estudou muito a obra de Tolkien, chega a conhecer. E uma dessas obras é Roverandom, cujos elementos de fantasia serviram como base para parte do desenvolvimento da obra-prima de Tolkien. No entanto, esta é uma obra muito mais simples e breve, perfeito para quem está conhecendo a escrita do autor e não tem tempo para ler uma triologia inteira. É uma obra simples por ser, a princípio, direcionada a crianças (mais especificamente aos filhos de Tolkien).

O enredo, sobre o qual contarei mais abaixo, foi inspirado em um fato ocorrido certa vez quando Tolkien e a família foram passar as férias na praia em Filey, no litoral de Yorkshire, e seu filho Michael perdera, na areia da praia, um cãozinho de brinquedo o qual ele carregava consigo para todo lugar, era o brinquedo favorito de Michael. Para animar as crianças, Tolkien começara a contar esta história, a qual mais tarde se tornara um livro, o qual foi só publicado postumamente, graças à organização de Cristina Scull e Wayne Hammond. Porém, a escrita deste livro influenciou na escrita de O Hobbit e até mesmo da grande triologia, pois há elementos em comum entre as três obras.

O enrendo conta a história de Rover (ele inicialmente se chama assim), um cãozinho que, após morder a calça de um mago, é transformado em brinquedo e vai parar em uma loja de brinquedos. Ele é comprado por uma família e um dos meninos (inspirado no filho de Tolkien) o perde na praia. Enquanto na forma de brinquedo, Rover não conseguia se mover na presença de seres humanos e ainda muito pouco quando sozinho, mas ao ser perdido na praia, ele volta a poder se movimentar, o que logo entende ser devido à magia de outro mago, que ele conhece na praia. O livro gira em torno das aventuras de Rover e de três magos: Artarxerxes, o mago que transformara Rover em brinquedo, Psamatos, o mago da areia, que ajuda Rover a fugir de Artarxerxes, e o Homem da Lua. Sim, Homem da Lua, pois, para afastar Rover do bravo Artarxerxes, Psamatos o envia para a lua, voando em uma gaivota chamada Mew, que é o carteiro do Homem da Lua.

A forma como ele chega a lua é muito interessante: eles seguem o caminho da lua por cima do mar (o rastro de luz que a lua deixa no mar) e seguem até a borda da Terra para então chegar à lua. Lá, Rover encontra o Homem da Lua e o cão da lua, que também de chama Rover e tem asas. Para não ter dois cães com o mesmo nome, o Homem da Lua chama o nosso Rover da terra de Roverandom, pois combina muito com ele e suas andanças sem destino certo (e inglês: rover = aquele que vaga, random = sem rumo). O cãozinho faz amizade com o cão da lua e passa um bom tempo por lá, onde encontra até um dragão. Logo mais, ele volta à Terra e, guiado pelo mago Psamatos, vai ao fundo do mar, procurar o mago que o enfeitiçou para pedir que ele lhe devolvesse seu tamanho normal (pois ele ainda estava no tamanho de um brinquedo). Eles vão em busca de Artarxerxes no fundo do oceano, pois este com uma sereia. No mar, Roverandom encontra outro cão chamado Rover no mar e também passa por diversas aventuras por lá, onde há uma cobra gigante que é uma ameaça a todos os habitantes do mar.

Enfim, é um livro cheio de fantasia, magos, magia, dragões, cobras marinhas, sereias e muito mais. A princípio, pode parecer tratar-se de um livro infantil e pode sim, ser lido como tal, tanto para leitores jovens quanto adultos que estão a procura de uma leitura mais leve para entretenimento, mas os elementos presentes em tudo isso levam o leitor a maiores reflexões, começando pelo nome que o cão recebe do dono da lua. Roverandom, em uma tradução bem simples pode ser algo como aquele que vaga sem rumo, que perambula pelo mundo sem destino certo. Isso pode ser diretamente relacionado à famosa frase de Tolkien “Nem todos que vagam estão perdidos”. O protagonista tem, sim, um destino (não contarei aqui qual, pois poderia ser spoiler do final do livro, mas ele tem um destino), porém, ele vive as aventuras em cada um dos lugares mágicos que conhece de maneira a quase se esquecer, por muitas vezes, de porque foi para lá afinal, seja na lua ou no mar. Portanto, o livro, assim como boa parte da obra de Tolkien, é uma fantasia envolta em significado, em que a magia se mostra real dentro daquele universo e serve para nos mostrar como ver o mundo real por meio de uma perspectiva mais fantástica, como ver a magia no mundo, vendo-o como uma jornada a ser vivenciada, não como uma simples estrada com um objetivo único.

Amanda Leonardi
Bacharel em Letras na UFRGS, escritora e tradutora. Fã de Shakespeare desde criança, fanática por Poe, poesia e por literatura clássica e de terror em geral, e também por filmes de terror. Escreve contos e poemas e participou de algumas antologias de contos e poemas. Escreve matérias sobre literatura e cinema para o Literatortura e para a revista online Conexão Literatura.

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