Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Companhia das Letras, 2015
Páginas: 240

 O nazismo deixou marcas. Muitas. E são marcas que não podem ser vistas apenas como cicatrizes, lembranças, memórias, mas marcas que, como na Colônia Penal, de Franz Kafka, ficaram – e ainda estão – na pele, na carne de todos aqueles que sofreram com sua estrutura brutal. Os corpos, diante dessa lógica de pensamento, tornaram-se amputados, adaptados ao horror e, por isso, toda superação do horror parte do princípio de assumi-lo como presença. Em uma frase simples, contida na obra de Gonçalo: “Fazemos isso porque podemos. Somos judeus”.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares, conta a história de Marius, um sujeito que encontra perdida na rua a menina Hanna, portadora de Síndrome de Down – ou trissomia do 21, como trata o autor – com uma pequena caixa com uma série de instruções. Entre as poucas palavras que diz, Marius descobre de Hanna apenas uma coisa: ela está à procura de seu pai. Assim, Marius começa uma peregrinação até Berlim em busca do pai de Hanna e, no caminho, esbarra em diversos encontros inusitados fortemente marcados e marcantes de um período pós-guerra.

A primeira coisa a ressaltar da obra é a caixa de Hanna. Esta caixa contém uma série de exercícios para fazer com a menina, como atividades de aprendizado, perguntas, entre outros. No entanto, nesta série “pragmática” do aprendizado, fica latente uma espécie de despreparado humano para grande parte das perguntas, na maioria das vezes bastante subjetivas, como “reagir à sexualidade de modo socialmente agradável”. Esta caixa coloca, no de cara, uma equiparação da fragilidade humana: uma horizontalidade entre a menina e Marius que chega a pensar:

“como isto era difícil, não apenas para um deficiente mental, mas para todos os seres humanos, para todos os seres vivos – “indicar a parte do corpo que dói”.”

No entanto, o que mais se destaca é que Gonçalo, a partir da chegada em Berlim e da entrada em um estranho Hotel, engendra em sua narrativa algo como uma vertigem das palavras, em que no foco, de certa forma, estão os homens diante dos horrores do mundo, como se cada porta de cada recinto possuísse uma área de escape que fosse simultaneamente uma prisão. O Hotel, por exemplo, (e conto isso sem contar demais da obra) possui todos os quartos com nomes de campos de concentração, assim como o mapa de sua construção. O próprios corpos de Raffaelle e Moebius, em muitos níveis, estão marcados por esses nomes, espécies de estigmas de uma guerra.

É neste ponto que o papel de Hanna é essencial: Marius parece também fugir de alguma coisa, mas a presença de Hanna e suas limitações por conta de sua condição colocam tanto Marius como as demais pessoas em estado de uma alegre prontidão, como se a presença testemunhal de Hanna permitisse a todos uma suspensão do entendimento das coisas e a criação de um espaço afetivo de possibilidade de conversa, de abertura ao outro. Assim, diversas histórias, narrativas, compondo tal como uma geografia de cada personagem e local – como a loja de antiguidades, a mochila do velho Terezin, o homem do olho vermelho – em que todos tivessem algo a contar, mas só pudessem fazer isso graças à frágil presença de Hanna.

Pode-se dizer que Uma menina está perdida no seu século à procura do pai é composta nesta espécie de vertigem da história do passado, alucinando as formas do presente, compondo um destino com cara de acaso e um acaso com cara do destino. As situações exemplares parecem absolutamente fortuitas, fugidias, assim como os gestos mais breves dos olhos, dos rostos e das mãos que colocam-se com uma precisão quase que determinada pelos deuses. E o que parece, no fim, é que o caminho de Marius e Hanna é o de avançar, nunca se estabelecer. Achar o pai – neste caso o pai não precisa ser o pai – no fim das contas, parece irrelevante, mas inventar formas de se afetar pelo outro, se deixar definir pela escolha do acaso do outro, tal como em:

O acaso, o que lhe acontecia, definia o seu caminho; como se o exterior mandasse nele, como se o seu destino estivesse não nele, mas em cada pessoa com quem cruzava. Para onde me levarem, eu vou.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai é o melhor livro de 2015. Gonçalo não encontrou o caminho e, neste caminhar, me perdi em sua multidão.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

2 thoughts on “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

  1. Em um mar de futilidades e pensamentos rasos, que nos impõem uma nazista adesão para termos o direito de renunciar ao isolacionismo redentor, um comentário como este, sinalizando para uma recôndita beleza que elucida, apavora e revela, no brinda a magia da existência Sartriana. Parabéns Luiz. Lerei o livro graças a ti.

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