[+18] A História do Olho, de Georges Bataille

Autor: Georges Bataille
Editora: Cosac & Naify, 2003
Tradução e prefácio: Eliane Robert Moraes
Ensaios: Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar

O cu também tem história. Ele não só caga como também pensa, fala, grita, cheira, morde. Pensar uma história do olho – que no caso é a história de um cu, ou de cus, ou de olhos que servem aos cus – é virar de ponta a cabeça a história: tira-la da razão, do pensamento sistemático, da pragmática e coloca-la no mais baixo do sexo, no proibido no sexo, naquilo que é tabu, inclusive, no que é mais livre. O cu é aquilo que nos faz estéreis, que nos dá potência para o nada, que é dispêndio e desrazão. O cu é um orifício, uma porta. Uma saída para a voz, uma saída para o corpo.

A História do Olho, de Georges Bataille, conta a história de um rapaz e sua amiga, parceira e amante Simone em suas atividades eróticas da adolescência. De uma devassidão irrestrita e absoluta, Simone busca erotizar todos as instâncias da vida comum. Seja num bar, numa igreja, num parque, não importa, ela arruma alguma forma de arrancar sua roupa e oferecer seu corpo aos outros, e a seu amigo a quem o pau duro logo responde a repetidas esporradas, mijadas e muito mais. Juntos, encontram Marcela, uma menina pudica que entra no jogo dos dois e, em uma noite exasperante, enlouquece até precisar ser levada a uma clínica psiquiátrica.

Esses dois corpos adolescentes, por volta dos quinze anos, descobrindo os prazeres, destituem o valor dos adultos que, na obra, se tornam meros coadjuvantes, ou melhor, voyeurs, sem possibilidade de fala, de voz. A potência da juventude acua a razão da maturidade, tornando-a anacrônica e incapaz de proferir seus vetos e tabus. Então, ao corpo resta uma fusão cósmica com a natureza, não naquilo de sublime, pelo contrário, mas em seus resíduos, dejetos, sobras que, amalgamadas, compõe uma força absoluta:

Enquanto isso, o céu ameaçava uma tempestade e, com a noite grossos pingos de chuva haviam começado a cair, aliviando a tensão de um dia tórrido e sem ar. O mar fazia um barulho enorme, dominado pelos fortes estrondos dos trovões, e os relâmpagos permitiam ver, como à luz do dia, os dois cus excitados das meninas então emudecidas. Um frenesi brutal agitava nossos três corpos. Duas bocas juvenis disputavam meu cu, meus colhões e meu pau, e eu não parava de abrir pernas úmidas de saliva e porra. Era como se eu quisesse escapar do abraço de um monstro,  e esse monstro era a violência dos meus movimentos. (…) A violência dos trovões nos assustava e aumentava nossa fúria, arrancando-nos gritos que ficavam mais fortes a cada relâmpago, ante a visão de nossos séculos.

Não é a toa que Bataille, ao lançar a obra em 1928, tenha optado pro um pseudônimo – Lord Auch (que significa Deus se aliviando ou Deus cagando)– na medida em que a voz colocada na obra era por demais obscena, ou seja, deveria necessariamente ficar fora da cena pública, primeiro, para garantir a permanência da devassidão por fora da lei e, por último, para a preservação de uma vida do autor (que afinal de contas precisava trabalhar, não?)

É que o ponto chave, que transforma esta obra em erótica, ou seja, da manipulação de um eros buscando os limites do tabu, é conseguir fugir do que seria uma atividade erótica da vida comum, quase catártica. Em um momento, a personagem afirma:

Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos.
Mas, desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo  a que se chama “prazeres da carne”, justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por “sujo”. Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença, e sobretudo, o universo estrelado…

A devassidão é, então, produto da composição de um erotismo com as coisas do mundo. É, talvez por isso que Simone tenha tanta tara em sentar em objetos redondos como ovos, ou um colhão de touro, ou um olho humano. É que quem precisa ver o objeto não são os olhos, mas o corpo erótico, o mais sujo possível, para assim, poder sacralizar a atividade (ou não é no máximo da violência do corpo que Jesus se santifica?)

A História do Olho é, por fim, uma das obras narrativas mais importantes do século XX de um dos maiores pensadores a respeito do corpo. Suas obras como O Erotismo e Ânus Solar se tornaram referência para todo um pensamento que vai ter ecos em Derrida, Deleuze, Foucault, entre outros.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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