Júlio César, de William Shakespeare

Autor: William Shakespeare
Editora: Saraiva
Páginas: 125

A tirania, a vilania e a arrogância são características comuns a todos os reis, pois ao se posicionarem acima dos seus semelhantes e acreditarem que o poder a eles conferido fosse marca de superioridade, demonstravam assim, que essa autoridade não fazia deles pessoas excelentes, ao contrário, denunciava apenas aquilo que é mais baixo e mais grotesco na natureza humana: a sede pelo poder. Poder este que lhes foi conferido sempre pelo próprio povo e que na maioria das vezes se deixou escravizar de bom grado, fosse por ignorância, alienação, medo ou covardia, o fato é que quem sustenta um tirano no poder é sempre o próprio povo, como disse Cassius: César jamais teria pensado em ser lobo se não tivesse percebido que os romanos eram carneiros, ele só era um leão porque sabia que os romanos eram lebres.

Cassius, amigo de Brutus, encontrou neste argumento um meio de persuadi-lo a derrubar o grande Júlio César. É claro e evidente que os motivos de Cassius não são nobres nem comungam com os interesses da massa, mas são mesquinhos e estão relacionados com a inveja e a ambição. Mas Brutus tem o coração nobre, defende os interesses do povo e odeia bajuladores, entretanto Cassius consegue persuadi-lo justamente por meio de uma bajulação disfarçada. A nobreza de Brutus não permite que enxergue sinais de interesse pessoal no amigo e por isso não percebe que suas reais motivações para conspirar contra César nada têm a ver com a nação. Quando Cassius propõe a derrubada do grande César apresenta a Brutus argumentos coerentes e conscientes alegando que a queda de César seria pelo bem do povo:

Ele apanhou uma febre na Espanha;/ E quando tinha ataques; eu notei/ Como tremia; sim, o deus tremia –/ De seus lábios covardes vi fugir/ A sua cor, enquanto o seu olhar,/ Cujo lampejo põe pavor no mundo,/ Perdia o brilho. Eu o ouvi gemer;/ Como donzela frágil. Sim, me espanto/ Que um homem de tão fraca compleição/ Vencesse, só, o mundo majestoso/ Para levar a palma.”

Chegam assim à conclusão de que César não é nem de longe um deus como ele se intitulava, mas apenas um homem comum que sentia dores e que era perfeitamente capaz de ser ferido e morto pela mão de outro homem. A mesquinhez de Cassius apresenta-se aí na forma da inveja que sente de César quando pensa que poderia ser ele no poder no lugar de César, pois se este era apenas um homem qualquer um poderia tomar o seu lugar, mas Brutus interpretou a sua fala de maneira diferente e entendeu que Cassius estava preocupado apenas com o bem de Roma. Decidem matar César para preservar a república em Roma, mas cometem o erro de deixar vivo Marco Antônio, general e amigo de César. Marco Antônio profere um discurso no funeral de César e com poucas palavras consegue persuadir a multidão a se voltar contra os assassinos de César, assim instaura-se uma guerra e Roma elege Marco Antônio o seu novo imperador.

As consequências são diversas daquelas sonhadas por Brutus, pois suas ações findam pela precipitação da instauração de um império. A peça está dividida basicamente em dois momentos: na primeira temos a conspiração contra César e na segunda temos a vingança pelo seu assassinato. O ponto alto da peça e que mais me interessou é o momento em que o republicano Marco Antônio fala ao povo com responsabilidade e raciocínio contra os assassinos de César, mas sem mencionar qual a sua posição política e com isso consegue persuadi-los a se voltarem contra si mesmos e tornarem-se escravos novamente. Como já é de se esperar, a peça é uma obra característica do grande e maior poeta inglês, William Shakespeare.

Francisco Venâncio
Formado em Letras pelo Centro Universitário Padre Anchieta em Jundiaí/SP.

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