A jornada do escritor — estrutura mítica para escritores, de Christopher Vogler

O mais interessante de ler sobre o processo de criação de heróis é sempre encontrar algum dos componentes espelhados na vida real. Qualquer crítico mais versado que leu O herói de mil faces, de Joseph Campbell, vai entender que contar histórias de aventuras de heróis é tão parecido com a nossa vida que chega a assustar. Não obstante a isso, Vogler trás para nós — escritores ou não — o processo curioso sob uma ótica diferente da jornada do herói, comparando com várias mídias e dando exemplos de modelos atuais.

Essa situação é um ponto fortíssimo de Vogler. Há quem ache O herói de mil faces tedioso e difícil de ler, o que é compreensível, mas dificilmente irá passar por isso com A jornada do escritor. A experiência do autor com os estúdios Disney e da Fox, trabalhando nas mais diversas áreas, abriu-lhe um leque de conhecimento tão grande sobre as histórias; desde comédias românticas, até clássicos; que é invejável. Depois da publicação, Vogler tornou-se leitura obrigatória para a criação de roteiros.

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Mas o que é a tal jornada do herói? A jornada do herói é um processo que existe em todas as narrativas. Não só as de heróis clássicos ou característicos, até mesmo uma comédia romântica pode entrar na forma — forma, e não fórmula — da jornada.

Toda história se dividiria em três atos, no Primeiro: Mundo Comum; Chamado à Aventura; Recusa do Chamado; Encontro com o Mentor; e Travessia do Primeiro Limiar.

No Segundo: Provas, Aliados e Inimigos; Aproximação da Caverna Secreta; Provação; e Recompensa.

No Terceiro: O Caminho de Volta; Ressurreição; e Retorno com o Elixir.

Vogler altera os nomes de Campbell para seu livro. E é interessante algumas ressalvas de Vogler, como por exemplo a ideia de um herói exclusivamente masculino. Obviamente a história vem com uma conotação masculina, “heróis são fortes e mais admiráveis” e a maioria dos críticos são homens. No entanto a jornada é a mesma, compartilhamos, independente do gênero, realidades de nascimento, crescimento e envelhecimento, mas claro, ser mulher impões ciclos e aspectos aqui ou acolá de forma distinta. O feminino é importante nas histórias, até mesmo nas epopéias, o herói sente a vontade de se travestir para conhecer o seu lado feminino, o anima.

A explicação acerca de cada elemento é impecável e gostoso de ler, vemos como existem aspectos que se repetem sob diferentes figurinos, seja em livros, seja em filmes, e ficamos a compará-los a cada novo capítulo — Vogler nos ajuda, como disse, dando vários exemplos. Como por exemplo, todo herói que sai de seu mundo confortável para outro conturbado e caótico, existe a recusa, se não por ele próprio — óbvio — como em Nárnia com Edmundo que não acredita na irmã, o papel pode ser desempenhado por outro, como em Harry Potter com os tios Válter e Petúnia que não deixam Harry ir à Hogwarts. Eles recusam o elemento mágico de “outro mundo”.

Como a Travessia do Primeiro Limiar quase sempre ser numa ponte ou muro, como vemos em Stardust: O mistério da estrela, de Neil Gaiman, o velho que guarda o portão está separando e vigiando o mundo das fadas e dos humanos. O guardião tem essa relação com o herói, exercendo em segundo plano o papel de facetas de sua personalidade (ou do escritor).

Como também a figura do Mentor sempre é estar e não estar com o herói, para que sua evolução, seu crescimento, seja conquista própria. O mentor é quase o escritor personificado na história, dá presentes e aparece nos momentos mais difíceis, como Gandalf tanto em O Hobbit, como em Senhor dos Anéis. Como o Fauno n’O Labirinto do Fauno, o qual muitas vezes duvidamos de seu caráter e suas intenções com Ofélia. O mentor muitas vezes são ex-heróis que sobreviveram às provações e repassam seu conhecimento. Sobre o presente, é interessante ver que ele vai estar quase sempre com o herói e vai ser uma peça fundamental, como o sabre de luz que Obi-Wan entrega a Luke.

Não só o mentor é uma figura relativa ao herói. Ainda há outros personagens que representam possibilidades para o herói, para o bem e para o mal. A sombra, por exemplo, muitas vezes um vilão, seria exatamente a cópia do herói desvinculado de “boas” intenções.

O livro possui uma linguagem fácil de compreender, ilustrações lindas, a tradução é impecável, e em resumo posso dizer que traz uma carga importantíssima para quem vive no mundo literário e cinematográfico. Há um porém, no entanto, um efeito colateral. Depois de lê-lo você pode decifrar todos os finais de livros e filmes e qualquer história que vá ouvir, fazendo tudo parecer um “enlatado americano”. Mas não se engane, não há cópia nem fórmula, o processo da jornada é tão natural quando balançar a cabeça verticalmente para sim e horizontalmente para não. Sua vida é uma jornada do herói. Duvida? Pergunte ao seu psicólogo. As histórias têm seu valor também na superfície, não é preciso se aprofundar sempre para absorvê-la. Aproveite-a!

Italo Machado
"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde moro. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.

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