A Paz, de Aristófanes

Autor: Aristófanes
Tradução: Mario da Gama Kury

Nunca deixo de me fascinar ao perceber que a Grécia, apesar de tão distante temporalmente, é ainda nosso maior vizinho. Quando se está diante de uma guerra nos tempos atuais, a impressão que se tem é que chegamos a uma espécie de refinamento, de especificidade da guerra que muito diferencia de como ela era no passado. E eis que, diante de uma comédia grega, percebo que não importa aquilo que colocamos na guerra – progresso, técnica, tecnologia – é ela ainda que mostra o homem naquilo que ela tem de estúpido, patético e como, por de dentro das guerras, sempre aparece um homem em nome da paz.

A Paz, de Aristófanes, é uma comédia escrita na Grécia antiga e apresentada nas Dionísias de 421 a. C. Ela conta a história do lavrador Trigeu que, cansado de tantas guerras, resolve subir aos céus para resgatar a paz. Para subir, Trigeu monta em um escaravelho que se alimenta de excrementos, um dos pontos de maior comédia da peça. Chegando lá, encontra apenas o comilão Hermes que foi deixado por todos os deuses que, com raiva dos homens, resolveram deixa-los com suas mazelas e subirem “mais aos céus” para “parar de observar os homens”.

Assim, Trigeu, ao lado do Coro e de Corifeu, salva a Paz da caverna em que ela estava metida e a leva de volta para a terra, sendo recebido com grande festa pelos homens de paz e com profundo pesar com aqueles que lucravam com a guerra.

No começo, Hermes parecia ressabiado de receber um homem que gostaria de levar uma parte da paz que havia no céu, mas com elogios, oferendas e muitos alimentos, ele logo muda de opinião. Ao observar os homens de cima, ele afirma:

Desde que um graveto crepitou timidamente e um tonel atingido chocou-se violentamente contra outro não, não houve quem mais pudesse deter o mal e a Paz desapareceu.

O sumiço da Paz, no contexto grego, tem a ver com as constantes guerras ocorridas no império e Aristófanes, o dramaturgo da comédia, é aquele pronto e talvez o único apto para fazer esse tipo de crítica, da exposição do ridículo, na medida em que os outros gêneros como o trágico, o ditirambo e o épico tratavam apenas de temas sérios e tinham as guerras como seu mote principal.

A Paz é, por fim, uma comédia no sentido preciso do termo: usa-se dos temas de sua época para expo-la em suas cores mais fortes. Aponta os vícios como quem quer muda-los, mas não oferece saídas. Trata-se de, na Grécia, deixar claro o que erramos aqui em nós.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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