O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: José Olympio, 2016
Páginas: 112

Quase todo o debate e torno do feminismo e dos direitos da mulher em nossa sociedade tem girado em torno da pergunta: “Qual a lugar da mulher?”. A resposta é simples: O lugar da mulher é onde ela quiser. No entanto, esta pergunta assim vaga, vasta, deixa de levar em conta que a mulher é um sujeito que, como tal, está sempre em processo, em transformação e as perguntas nem sempre se colocam assim tão claras. A verdade é que se busca uma inversão do lugar em que a mulher sempre esteve: guardada, confinada, escondida, criada e preparada para manter-se longe das vistas da sociedade e para ser vista apenas como adorno, acessório, algo frágil a ponto de quebrar. A literatura, neste sentido, é o maior testemunho desse lugar e, por isso, a maior potência de transformação.

O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, conta a história de uma mulher confinada em uma casa alugada, sozinha na maior parte do dia, e que, na espera de seu marido John que passa a maior parte do tempo fora, se vê diante apenas de si própria, suas questões, seus pensamentos, suas felicidades e tristezas. Aos poucos, o desconforto do ambiente ainda pouco familiar se concretiza em um papel de parede colocado de seu quarto: ela vê figuras, combinações. E no mapeamento dessas figuras, vê em segundo plano uma mulher, deitada, que arrasta-se (Ela própria?) Neste universo de confinamento, na casa, no papel, a mulher se aprofunda em suas questões até o limite delas. Um limite que pode ser um fim.

Considerado um marco da feminista, publicado originalmente em 1892, a obra é um conto relativamente curto, talvez próximo da novela, em que a trama ao mesmo tempo em que tem um movimento centrípeto, com toda as partes convergindo para o mesmo objeto, consegue nos dá uma visão ampla do fato narrado. Como linguagem, a obra se sustenta na proximidade com outros gêneros em voga na época como o suspense e o terror, entretanto o que se vê não é mera psicologia, ou surtos de uma mulher, mas a tentativa de materialização de uma força interior em algo que exploda para fora de si.

A verdade é que esta mulher não via em nada – o mundo era um tanto quanto estéril – nem no marido, a possibilidade de diálogo. Sem poder falar, impedida pelo médico até de escrever, afinal essas mulheres podiam ser consideradas “histéricas”, ela passa a ficar deitada parte do dia. A resposta, me parece, é que o lugar da mulher deveria ser o de docilidade, de dar ordem a casa, a vida feliz, enquanto que toda potência de vida – o segundo plano do papel de parede amarelo – tenta a todo custo vir a tona.

O Papel de Parede Amarelo, obra de grande velocidade, ímpeto narrativo e força, consegue traduzir um “sentimento feminino” do lugar em que elas são colocadas. A figura da mulher que se arrasta em uma parede por detrás de um papel é talvez uma perfeita simbologia ou parábola para uma situação de convulsão interior. A resposta seria, ou sair do feminino ou arrumar outras formas de ser mulher. A liberdade que esta personagem não tem, aos poucos, vai se tornando a possibilidade de todas as mulheres poderem ser. A literatura é o marco de si próprio: testemunho de que o mundo mudou, mas que precisa mudar ainda mais.

Luiz Antonio Ribeiro
Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, mestrando em Memória Social na área de poesia brasileira e graduando do curso de Letras/Literaturas. É adepto da leitura, pesquisa, cinema, cerveja, Flamengo e ócio criativo. Em geral, se arrepende do que escreve. Facebook: http://www.facebook.com/ziul.ribeiro Twitter: http://www.twitter.com/ziul

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