Hamlet, de William Shakespeare

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. “Ser ou não ser, eis a questão”. “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”. As três frases são marcantes quando falamos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Reproduzidas sem cessar até os dias atuais, junto a figura de Hamlet contemplando um crânio, a peça de 1603 é atemporal. Em meio aos governos que se corrompem, tiranos que sobem ao poder, cortes que criam as mais sórdidas histórias, jovens que se veem de mãos atadas diante do reinado que podem herdar, Hamlet fala muito ainda pela nossa época.

A título de curiosidade, o mito de Hamlet é antigo e presente na história escandinava. De acordo com a edição da Abril Cultural, foi um dinamarquês do século XII, Saxo Grammaticus, quem passou a história adiante, no terceiro livro de sua compilação História Danica. Mas outros autores podem ter servido de inspiração a Shakespeare, como Thomas Kyd e Belleforest. Impressa em 1603, acredita-se que a peça foi escrita entre 1601 e 1602.

Após ter visto o espírito do pai morto, Hamlet se encontra insatisfeito com o decorrer da trama na corte, na qual a sua mãe casa-se com o irmão do marido falecido poucos meses após sua morte. O desfecho do rei choca o filho, que deixa os estudos na Universidade de Wittenberg para retornar à corte, em Elsenor. Inconformado com as corrupções a sua volta, Hamlet tem Horácio e Ofélia como únicos confidentes, sendo esta a mulher que ama, mas que promete ao pai Polônio não se casar com Hamlet.

A loucura que o príncipe parece ter é vista pela corte como um efeito da rejeição de Ofélia. No decorrer da peça, o leitor se encontra em dúvida quanto a sanidade do personagem, pois a aparição do pai fora forte para o jovem, e tamanhas decepções desta corte controlada, as falas exaltadas de Hamlet e a peça que ajuda a produzir para provocar o rei Cláudio levam a crer que ele pode estar, de fato, louco.

O grande mérito de Shakespeare é impor esta dúvida. O Hamlet que ele cria possui uma vivacidade incomum de quem sobrevive no caos pela ironia, sem medo de incitar os outros por sua fala. É um apaixonado pelo teatro e com um olhar crítico o qual dá voz ao próprio Shakespeare, constituindo uma bela representação dos bastidores da criação de uma peça de época.

A presença fantástica do rei morto surge como a epifania necessária, como um sopro aos ouvidos desta alma conturbada, para que algo seja feito. Hamlet tem um heroísmo feito de uma impetuosidade incorrigível, uma presença fortificada, principalmente por sua ironia, a qual vem junto a um intelecto peculiar. A famigerada fala “ser ou não ser, eis a questão” é muito mais profunda do que se pensa. Nela, o jovem questiona se vale mais a pena sofrer com os “dardos” desta contingência, desta corrupção entre as cortes, ou “tomar as armas”, lutar “contra um mar de calamidades”, mas no fim, morrer resistindo. Não haveria diferença entre o morrer e o dormir, como ele diz. Seria fácil crer que dormir ou morrer é acalmar as dores do coração. Mas sonhar, “eis a dificuldade”. Pensa-se que o sonho seria a sobrevivência mesmo no “sono da morte”, o que faz suportar “os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo”. Mas justamente por isso, sonhar é dificuldade. Se o sonho fosse fácil assim, teríamos uma recompensa imediata, obtida no sono, Hamlet questiona por que o homem, então, não acaba com a própria vida para obter a tão esperada paz. Ele completa dizendo que, no fim, nossa consciência teme pelo o que há após a morte, esta “região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou”.

Com este monólogo compreendemos qual é o propósito de Hamlet, na peça. Ele assume o medo que o acometeria ao pensar nesta viagem sem volta que é a morte. Contudo, mais adiante na peça, ele logo nota, quando se depara com coveiros lidando com os crânios de homens célebres, no passado, que morre-se e torna-se crânio debaixo da terra, e reputação alguma importa. Quer dizer, a reputação é preservada apenas na mente dos homens. O seu heroísmo não está em querer provar sua sanidade e, portanto, limpar a sua reputação, mas sim em possuir uma ação que resulte em algo na vida terrena. E que o amigo, Horácio, leve adiante a sua história como realmente deve ser contada. Por isso, a história criada por Shakespeare demonstra esse avançar e recuar nos argumentos de Hamlet, entre viver pela reputação e aceitar que a morte virá e seremos todos pó, novamente.

A peça Hamlet também traz, nas entrelinhas, uma correspondência que normalmente se perde entre as adaptações da peça. É a sua relação com Ofélia. Ambos perdem os pais e ambos morrem nesta corte corrupta. Dela, é esperado apenas um bom casamento, a submissão e o altruísmo. E de Hamlet espera-se que herde o reino. Contudo, envolvidos entre as tramas desprezíveis da corte, Ofélia e Hamlet se encontram desiludidos quanto ao futuro. E nunca se permitem a sinceridade, pois, na corte, ambos representam seus papéis. A insanidade de Hamlet permitira atuar por debaixo dos panos. Mas para Ofélia não é dada a opção de agir à favor da justiça, pois o seu papel, como mulher, é unilateral, na corte, servindo como a esposa concedida nas alianças.

Mesmo assim, esquece-se que Shakespeare dá uma ambiguidade interessante à trama de Ofélia. Há algo complexo na sua loucura: ao mesmo tempo em que, posteriormente, no século XIX, a imagem de Ofélia será louvada justamente pelo seu auto-sacrifício em função de dois homens, a peça de Shakespeare demonstra que a loucura dela pode ter sido originada também por uma relação amorosa ocorrida, às escondidas, com Hamlet. E o seu suicídio pode ter sido a única forma encontrada (considerando o espaço feminino extremamente limitado na época) para a sua salvação, o fim da dor, o sono pela morte. Mesmo assim, vale pensar o quanto inúmeras personagens na literatura de época encontraram tal fim trágico. Embora Hamlet o encontre também, o seu nome ainda será cantado na História, enquanto o de Ofélia será sempre o da jovem que se suicidou e, contrário aos princípios religiosos, foi enterrada em “terra santa”.

Desta forma, a peça de Hamlet possibilita pensar as tragédias que envolvem as cortes, a corrupção da alma, a tentativa de obter justiça em meio à lama, as relações conturbadas e complexas entre homens e mulheres, o espaço delimitado a cada um, na corte. Mas também, a peça de Shakespeare dá voz a um heroísmo que tenta sobreviver no sono da morte, o qual se conscientiza da vida humana decadente e, mesmo com o crânio e a morte contemplados na mão, persiste nos mares revoltos e insanos da vida terrena.

Visão de Hamlet, Pedro Américo (1893), Pinacoteca do Estado de São Paulo

Marina Franconeti
,23 anos, graduanda em Filosofia na USP. Escritora e cinéfila em formação, acha que qualquer dia desses vai se afogar na pilha de livros que precisa ler. Tem muito amor por sua biblioteca particular composta pelo primeiro livro que leu na vida, um infantil sobre Picasso, aos 7 anos, até as obras de Filosofia e Estética, que certamente vai reler até ficar velhinha. Bem lá no fundo acredita que Woody Allen vigiou seus sonhos e, assim, resolveu escrever o roteiro de Meia-Noite em Paris. Mantém o blog: http://marinafranconeti.wordpress.com/
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