Guerra do Velho, de John Scalzi

A princípio, se fosse para descrever Guerra do Velho, eu diria “um livro de diálogos bregas num futuro quase-distópico”. Mas então eu percebi que não era só isso, John Scalzi não fez nada de novo ou absurdo ao colocar um herói de 75 anos lutando em batalhas. Tolkien já contava de um hobbit, um herói velho, por uma jornada desconhecida.

A ideia de um futuro em que aos 75 anos você tem a possibilidade de se alistar no exército e desaparecer completamente da Terra, é algo tentador e gostoso de imaginar. Até porque um dos bônus é ter os órgãos novinhos em folha. Nosso personagem principal é John Perry, que perdeu a esposa há alguns anos e resolve entrar para as Forças Coloniais de Defesa (FCD) e lutar contra alienígenas. Ele e seus amigos encontrados pelo caminho são, de fato, bregas, com diálogos bregas e configurados em arquétipos tão batidos que deixam a leitura lenta. Mas como eu disse, Scalzi não nos apresenta só isso, nem mesmo deixa isso no livro a troco de nada. O fato de muitas conversas esquisitas e costumes bobos, ora, tem uma razão óbvia que é a premissa de toda a história: todos os personagens são pessoas velhas. Entendendo isso e, como leitores, encarando os problemas imersos nesta ótica, o livro se torna aprazível e instigante.

As diferentes raças alienígenas, algumas com características tão humanas quanto nós, como misericórdia e costumes religiosos; e outras com tecnologias superiores e rituais bizarros entram em conflito com os personagens de modo por vezes engraçado, por vezes cruel e intenso. E desde o momento em que John embarca no Pé-de-Feijão, um tipo de nave/elevador com engenharia confusa, ele percebe o quão delicada é a vida, aumentando em escala nos momentos de guerra. E é interessante observar que, mesmo tratando de velhos, todos os personagens amadurecem na sua jornada.

A maior influência de Scalzi, foi do livro de Robert A. Heinlein, Tropas Estelares, então qualquer semelhança dos insetos gigantes e as características da FCD foram quase que homenagens à sua grande inspiração.

Em suma, o livro pode não ter apresentado uma narrativa agradável, mas conseguiu criar um universo único e capaz de destaque no meio do gênero. Os personagens crescem no decorrer da história, e isso é um ponto valiosíssimo nas narrativas atuais, então vale a pena dar um chance para eles mesmo com todos os momentos cheesy — porque eles são velhos e você deve respeitá-los.

Italo Machado
"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!". Como o Pequeno Nemo, tenho medo que descubram quem eu sou ou onde moro. Amante da fantasia, de tudo aquilo que conta o real de forma improvável. Cinéfilo e contista.

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